Para recuperar o coração oratoriano

Tuesday, 17 May 2016 21:01 Written by 
“Para nós, salesianas e salesianos, o coração oratoriano não é somente um local, como o oratório físico ou o centro juvenil. É a paixão de Dom Bosco”, afirma irmã Runita Borja, coordenadora para a Pastoral Juvenil no Instituto das FMA.

A irmã Runita Galve Borja, coordenadora geral para a Pastoral Juvenil no Instituto Internacional das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), esteve em São Paulo nos dias 1º a 5 de março, quando conduziu o Encontro de Formação para coordenadoras da Pastoral Juvenil nas inspetorias das FMA no Brasil. Em intervalo do evento, que reuniu religiosas e leigos e teve a missão educativa como tema central, irmã Runita falou ao Boletim Salesiano sobre as perspectivas da PJ Salesiana no País.

 

Boletim Salesiano – Quais são hoje, em sua opinião, os grandes desafios para a Pastoral Juvenil Salesiana em âmbito mundial?

Irmã Runita Galve Borja – Com base no que conversamos durante o Capítulo Geral 23, das Filhas de Maria Auxiliadora, e depois dialogando com as inspetorias, acredito que o grande desafio que temos é recuperar a identidade própria do nosso ambiente educativo. Para nós, é recuperar o coração oratoriano. Porque para  salesianas e salesianos, o coração oratoriano não é somente um local, como o oratório físico ou o centro juvenil. É a paixão de Dom Bosco, a paixão por ajudar o mais pobre, por ser mais criativo, por se juntar a outros e agir pelo bem dos jovens, por descobrir junto com os jovens sua vocação e por fim, é a paixão por criar comunidades, porque o trabalho educativo não é de uma pessoa só. A comunidade e o ambiente são  os que formam o jovem. A missão não é de uma única pessoa, embora tenhamos figuras muito carismáticas, mas a perspectiva salesiana é que a educação capta o ambiente, que é formado por pessoas, estruturas, horários, atividades. Para nós esse é o grande desafio.

Depois temos outros desafios para esses próximos anos, até 2020. Um é educar para a dimensão social da evangelização, que para as FMA é um ponto sobre o qual devemos crescer. A evangelização além de expressar o encontro pessoal com Jesus, deve ter consequências na vida concreta; em como eu vivo com a minha fé. Como indica o Papa Francisco, os cristãos devem ser o sal da terra, a luz do mundo. Outro ponto a nos desafiar é a educação para as relações. Descobrir o valor das relações, o que é muito importante para os salesianos: a palavra “amorevolezza” diz que a educação passa pelo coração. E o terceiro, é a promoção da cultura vocacional em todos os nossos ambientes. A vocação não é somente para ser freira ou padre, mas é descobrir o desejo de Deus na minha vida. Minha vocação pode ser religiosa, ou para ser educador, ou para ser político, mas preciso descobri-la. Então, que os nossos ambientes ajudem o jovem a descobrir sua vocação como um modo de servir.

 

BS – O Brasil é um país de dimensão continental e temos aqui nove inspetorias das FMA... como se pode pensar a unidade da Pastoral Juvenil Salesiana?

Ir. Runita – É um país amplo e com realidades muito diversas. Mas a população juvenil é muito grande aqui, e a Pastoral Juvenil deveria ser realizada “com” os jovens, não somente “para” eles. É importante saber que os jovens são nossos destinatários, mas que eles podem ser evangelizadores de outros jovens. Para uma pastoral eficaz, são os jovens que podem indicar o melhor caminho. A juventude tem tanto interesse de fazer alguma coisa, de agir! Foi o que vi na Jornada Mundial da Juventude 2013 (JMJ-Rio 2013), quando estive no Rio de Janeiro: jovens da Articulação da Juventude Salesiana (AJS) com tanto entusiasmo! Então esse é o tipo de PJ que precisamos.

Necessitamos também ter um equilíbrio entre as obras tradicionais, como a escola e os colégios, e as novas possibilidades. Ter ainda uma Pastoral Juvenil Salesiana que esteja muito em diálogo com a Igreja; porque somos parte da Igreja, ela não é algo fora de nós. Por fim: ajudar as pessoas a descobrir a própria beleza, como povo, em sua diversidade. Porque as identidades são diversas, e que não seja então algo igual para todos. Que cada um descubra e divida a beleza e os problemas de sua região.

 

BS – No Brasil está se fazendo uma caminhada conjunta das FMA com os Salesianos de Dom Bosco (SDB), na formação da Rede Salesiana Brasil. Como a senhora vê essa iniciativa na Pastoral Juvenil?

Ir. Runita - Eu fico muito feliz com isso! Acredito que em nossas iniciativas, trabalhar em conjunto é um testemunho para os jovens. Para mim, esse é o primeiro ponto: nós damos testemunho quando estamos em comunhão. Segundo, as iniciativas são mais ricas quando feitas em conjunto, porque se pode ver sob diversas perspectivas. Depois, os recursos são valorizados, porque quando agimos separados, desperdiçamos energias para realizar as mesmas coisas. E tem mais, quando fazemos juntos, podemos compartilhar resultados e os recursos sobressalentes podem ser investidos em outras ações. Eu vi como trabalharam aqui no Brasil na preparação do Encontro do Movimento Juvenil Salesiano para a JMJ. Fiquei muito impressionada. Pela corresponsabilidade para a preparação do evento, e vi também o respeito que se tinha pelos leigos. Penso que aqui no Brasil há um caminho de corresponsabilidade, não apenas das FMA e dos SDB, mas também se estendendo aos leigos.

 

BS – Que mensagem a senhora deixa para os leitores do Boletim Salesiano?

Ir. Runita - Estamos no Ano da Misericórdia. Minha mensagem é o desejo de que nossa fé seja uma verdadeira expressão da misericórdia de Deus para os outros. Seguindo o exemplo de Dom Bosco e de Madre Mazzarello, que nos dediquemos ao cuidado com os mais pobres, aos mais debilitados. E que em nossas comunidades todo jovem possa encontrar uma casa. Essa casa é construída não apenas por nós, adultos, mas pelos jovens conosco, então façamos com que nossas casas sejam locais onde outros jovens encontrem experiências de misericórdia. Ou, como o Papa Francisco diz, oásis de misericórdia – essa é uma bela metáfora, porque no deserto, em uma situação de fadiga, de falta de perspectivas, a nossa casa, nossa comunidade, pode ser a área fresca para dar esperança aos outros. 

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Last modified on Wednesday, 18 May 2016 00:21

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Para recuperar o coração oratoriano

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“Para nós, salesianas e salesianos, o coração oratoriano não é somente um local, como o oratório físico ou o centro juvenil. É a paixão de Dom Bosco”, afirma irmã Runita Borja, coordenadora para a Pastoral Juvenil no Instituto das FMA.

A irmã Runita Galve Borja, coordenadora geral para a Pastoral Juvenil no Instituto Internacional das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), esteve em São Paulo nos dias 1º a 5 de março, quando conduziu o Encontro de Formação para coordenadoras da Pastoral Juvenil nas inspetorias das FMA no Brasil. Em intervalo do evento, que reuniu religiosas e leigos e teve a missão educativa como tema central, irmã Runita falou ao Boletim Salesiano sobre as perspectivas da PJ Salesiana no País.

 

Boletim Salesiano – Quais são hoje, em sua opinião, os grandes desafios para a Pastoral Juvenil Salesiana em âmbito mundial?

Irmã Runita Galve Borja – Com base no que conversamos durante o Capítulo Geral 23, das Filhas de Maria Auxiliadora, e depois dialogando com as inspetorias, acredito que o grande desafio que temos é recuperar a identidade própria do nosso ambiente educativo. Para nós, é recuperar o coração oratoriano. Porque para  salesianas e salesianos, o coração oratoriano não é somente um local, como o oratório físico ou o centro juvenil. É a paixão de Dom Bosco, a paixão por ajudar o mais pobre, por ser mais criativo, por se juntar a outros e agir pelo bem dos jovens, por descobrir junto com os jovens sua vocação e por fim, é a paixão por criar comunidades, porque o trabalho educativo não é de uma pessoa só. A comunidade e o ambiente são  os que formam o jovem. A missão não é de uma única pessoa, embora tenhamos figuras muito carismáticas, mas a perspectiva salesiana é que a educação capta o ambiente, que é formado por pessoas, estruturas, horários, atividades. Para nós esse é o grande desafio.

Depois temos outros desafios para esses próximos anos, até 2020. Um é educar para a dimensão social da evangelização, que para as FMA é um ponto sobre o qual devemos crescer. A evangelização além de expressar o encontro pessoal com Jesus, deve ter consequências na vida concreta; em como eu vivo com a minha fé. Como indica o Papa Francisco, os cristãos devem ser o sal da terra, a luz do mundo. Outro ponto a nos desafiar é a educação para as relações. Descobrir o valor das relações, o que é muito importante para os salesianos: a palavra “amorevolezza” diz que a educação passa pelo coração. E o terceiro, é a promoção da cultura vocacional em todos os nossos ambientes. A vocação não é somente para ser freira ou padre, mas é descobrir o desejo de Deus na minha vida. Minha vocação pode ser religiosa, ou para ser educador, ou para ser político, mas preciso descobri-la. Então, que os nossos ambientes ajudem o jovem a descobrir sua vocação como um modo de servir.

 

BS – O Brasil é um país de dimensão continental e temos aqui nove inspetorias das FMA... como se pode pensar a unidade da Pastoral Juvenil Salesiana?

Ir. Runita – É um país amplo e com realidades muito diversas. Mas a população juvenil é muito grande aqui, e a Pastoral Juvenil deveria ser realizada “com” os jovens, não somente “para” eles. É importante saber que os jovens são nossos destinatários, mas que eles podem ser evangelizadores de outros jovens. Para uma pastoral eficaz, são os jovens que podem indicar o melhor caminho. A juventude tem tanto interesse de fazer alguma coisa, de agir! Foi o que vi na Jornada Mundial da Juventude 2013 (JMJ-Rio 2013), quando estive no Rio de Janeiro: jovens da Articulação da Juventude Salesiana (AJS) com tanto entusiasmo! Então esse é o tipo de PJ que precisamos.

Necessitamos também ter um equilíbrio entre as obras tradicionais, como a escola e os colégios, e as novas possibilidades. Ter ainda uma Pastoral Juvenil Salesiana que esteja muito em diálogo com a Igreja; porque somos parte da Igreja, ela não é algo fora de nós. Por fim: ajudar as pessoas a descobrir a própria beleza, como povo, em sua diversidade. Porque as identidades são diversas, e que não seja então algo igual para todos. Que cada um descubra e divida a beleza e os problemas de sua região.

 

BS – No Brasil está se fazendo uma caminhada conjunta das FMA com os Salesianos de Dom Bosco (SDB), na formação da Rede Salesiana Brasil. Como a senhora vê essa iniciativa na Pastoral Juvenil?

Ir. Runita - Eu fico muito feliz com isso! Acredito que em nossas iniciativas, trabalhar em conjunto é um testemunho para os jovens. Para mim, esse é o primeiro ponto: nós damos testemunho quando estamos em comunhão. Segundo, as iniciativas são mais ricas quando feitas em conjunto, porque se pode ver sob diversas perspectivas. Depois, os recursos são valorizados, porque quando agimos separados, desperdiçamos energias para realizar as mesmas coisas. E tem mais, quando fazemos juntos, podemos compartilhar resultados e os recursos sobressalentes podem ser investidos em outras ações. Eu vi como trabalharam aqui no Brasil na preparação do Encontro do Movimento Juvenil Salesiano para a JMJ. Fiquei muito impressionada. Pela corresponsabilidade para a preparação do evento, e vi também o respeito que se tinha pelos leigos. Penso que aqui no Brasil há um caminho de corresponsabilidade, não apenas das FMA e dos SDB, mas também se estendendo aos leigos.

 

BS – Que mensagem a senhora deixa para os leitores do Boletim Salesiano?

Ir. Runita - Estamos no Ano da Misericórdia. Minha mensagem é o desejo de que nossa fé seja uma verdadeira expressão da misericórdia de Deus para os outros. Seguindo o exemplo de Dom Bosco e de Madre Mazzarello, que nos dediquemos ao cuidado com os mais pobres, aos mais debilitados. E que em nossas comunidades todo jovem possa encontrar uma casa. Essa casa é construída não apenas por nós, adultos, mas pelos jovens conosco, então façamos com que nossas casas sejam locais onde outros jovens encontrem experiências de misericórdia. Ou, como o Papa Francisco diz, oásis de misericórdia – essa é uma bela metáfora, porque no deserto, em uma situação de fadiga, de falta de perspectivas, a nossa casa, nossa comunidade, pode ser a área fresca para dar esperança aos outros. 

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