Jovens profetas sem medo

Monday, 07 September 2020 15:33 Written by  Pe. Ángel Fernández Artime
Jovens profetas sem medo O Reitor-mor, padre Ángel Fernández Artime, durante visita a Venezuela ANS
Estamos unidos por uma missão: “Ir para o paraíso e levar conosco o maior número de pessoas que pudermos”, afirma o Reitor-mor em seu artigo para o Boletim Salesiano de Setembro.    

Uma saudação muito cordial, queridos amigos do Boletim Salesiano, que Dom Bosco tanto amava. Quero partilhar com vocês um belo testemunho juvenil, com as palavras de uma garota venezuelana.

 

Quando visitei de novo a Venezuela, em fevereiro deste ano, participei do “Encuentro Nacional con Jóvenes”, um encontro nacional com os jovens venezuelanos, que foi bonito e animado. Naquele dia, uma garota chamada Eusibeth leu uma mensagem que havia escrito de seu próprio punho e lhe havia saído do fundo do coração. Leu-a em voz alta em nome dos jovens venezuelanos, generosos, cheios de esperança e que estão sofrendo com a situação da sua bela terra.

Dizia assim:

 

“Caríssimo padre Ángel, do fundo do coração agradecemos ao Senhor pela sua visita ao nosso país e por haver disposto de tempo para se encontrar conosco, os jovens, que sabemos como lhe somos queridos. Estas minhas palavras querem exprimir o sentimento de cada um de nós que vivemos essa proposta de santidade e que temos um coração salesiano.

 

Estamos todos representados. Desde os rapazes indígenas que cresceram na liberdade da selva amazônica, aos irmãos andinos cheios de fraternidade e gentileza, aos jovens da região central que constroem com generosidade a civilização do amor, aos “guaros”, aos orientais, aos coreanos, todos nós que temos a alegria e o orgulho de ser venezuelanos.

 

Estão presentes também conosco hoje todos os jovens que tiveram de deixar a sua terra, transformando um solo estrangeiro em casa, escola, paróquia e pátio.

 

Se alguma coisa nos caracteriza como jovens, além das nossas personalidades e dos diversos modos de pensar, é que estamos unidos por uma missão: ‘Ir para o paraíso e levar conosco o maior número de pessoas que pudermos’, como dizia o nosso amado pai Dom Bosco.

 

Não é segredo para ninguém aquilo que diariamente temos de viver: uma realidade em que somos calcados aos pés pelas botas deste mundo que quer impedir-nos de sonhar o impossível e de apostar nos grandes ideais.

 

A espiritualidade salesiana permitiu-nos caminhar na esperança, renovando a nossa fé, mesmo quando por vezes tudo parece incerto e irrealizável.

 

Nós, jovens venezuelanos, somos corajosos profetas e, apesar do medo de sermos julgados ou agredidos, não permitiremos que a nossa voz seja abafada.

 

Somos jovens que acordam todas as manhãs, sem nada que comer, para ir à escola ou à universidade, e perseguimos com tenacidade e fadiga a tarefa de conquistar uma formação integral, com muitos quilômetros nas pernas, empenhados na educação, porque este é o melhor instrumento de que dispomos para mudar a nossa nação e o mundo.

 

Somos jovens que, embora obrigados a trabalhar por necessidade, pondo de lado o que amamos e sacrificando os nossos sonhos, ousamos ser uma luz no meio de um povo tão ferido e sedento de Jesus. Somos frágeis também nós e amedrontados com este nosso mundo que cai aos pedaços e sobre o qual gostaríamos de passar uma esponja, mas o olhar amoroso de Deus e a proteção materna de Maria convidam-nos a continuar a pôr a nossa vida a serviço dos outros, sobretudo dos rapazes e das meninas mais pobres e indefesos. Ninguém pode voltar para trás, mas todos podem seguir em frente.

 

Ser jovens salesianos ajuda-nos a responder como discípulos fiéis e corajosos a tudo aquilo que estamos vivendo. Somos verdadeiros “xamãs”, “magos” autênticos, audazes, santos de hoje: de jeans, de tênis e camiseta, como diz o Papa Francisco.

 

Caríssimo padre Ángel e todos os membros da nossa Família Salesiana: a presença de vocês nos dá coragem para fazer a diferença, para continuar a lutar por uma Venezuela justa e santa, apostando tudo no bem dos jovens. Não deixem de nos acompanhar e de acreditar em nós. Obrigado por estarem aqui!”

 

Assim termina este afetuoso testemunho juvenil. Escutar Eusibeth diante de 800 jovens, num quente serão de Caracas, me fez pensar em como e quanto Dom Bosco acreditava nos jovens, nas suas capacidades, nas suas potencialidades, na bondade que há no coração de cada um.

 

E o que acontecia com Dom Bosco há 160 anos, continua a acontecer hoje em toda a parte do mundo. Não é verdade que os jovens de hoje não têm bom coração. Certamente há jovens que se encontram em caminhos de confusão, de escravidão, de morte já em vida… Jovens que precisam mesmo ser “salvos”.

 

Mas há muitos outros, milhões e milhões (e os jovens que encontrei com Eusibeth são a prova disso) que acreditam na vida, na beleza do amor, na beleza da partilha e na plenitude de significado que Deus lhes dá. Sabem que não somos derrotados quando perdemos, mas quando desistimos.

 

É possível ainda hoje pensar e falar assim? Eu afirmo que é possível. Continuem sem medo a fazer o bem, meus bons amigos, e que o nosso Deus os cumule da sua paz.

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Jovens profetas sem medo

Monday, 07 September 2020 15:33 Written by  Pe. Ángel Fernández Artime
Jovens profetas sem medo O Reitor-mor, padre Ángel Fernández Artime, durante visita a Venezuela ANS
Estamos unidos por uma missão: “Ir para o paraíso e levar conosco o maior número de pessoas que pudermos”, afirma o Reitor-mor em seu artigo para o Boletim Salesiano de Setembro.    

Uma saudação muito cordial, queridos amigos do Boletim Salesiano, que Dom Bosco tanto amava. Quero partilhar com vocês um belo testemunho juvenil, com as palavras de uma garota venezuelana.

 

Quando visitei de novo a Venezuela, em fevereiro deste ano, participei do “Encuentro Nacional con Jóvenes”, um encontro nacional com os jovens venezuelanos, que foi bonito e animado. Naquele dia, uma garota chamada Eusibeth leu uma mensagem que havia escrito de seu próprio punho e lhe havia saído do fundo do coração. Leu-a em voz alta em nome dos jovens venezuelanos, generosos, cheios de esperança e que estão sofrendo com a situação da sua bela terra.

Dizia assim:

 

“Caríssimo padre Ángel, do fundo do coração agradecemos ao Senhor pela sua visita ao nosso país e por haver disposto de tempo para se encontrar conosco, os jovens, que sabemos como lhe somos queridos. Estas minhas palavras querem exprimir o sentimento de cada um de nós que vivemos essa proposta de santidade e que temos um coração salesiano.

 

Estamos todos representados. Desde os rapazes indígenas que cresceram na liberdade da selva amazônica, aos irmãos andinos cheios de fraternidade e gentileza, aos jovens da região central que constroem com generosidade a civilização do amor, aos “guaros”, aos orientais, aos coreanos, todos nós que temos a alegria e o orgulho de ser venezuelanos.

 

Estão presentes também conosco hoje todos os jovens que tiveram de deixar a sua terra, transformando um solo estrangeiro em casa, escola, paróquia e pátio.

 

Se alguma coisa nos caracteriza como jovens, além das nossas personalidades e dos diversos modos de pensar, é que estamos unidos por uma missão: ‘Ir para o paraíso e levar conosco o maior número de pessoas que pudermos’, como dizia o nosso amado pai Dom Bosco.

 

Não é segredo para ninguém aquilo que diariamente temos de viver: uma realidade em que somos calcados aos pés pelas botas deste mundo que quer impedir-nos de sonhar o impossível e de apostar nos grandes ideais.

 

A espiritualidade salesiana permitiu-nos caminhar na esperança, renovando a nossa fé, mesmo quando por vezes tudo parece incerto e irrealizável.

 

Nós, jovens venezuelanos, somos corajosos profetas e, apesar do medo de sermos julgados ou agredidos, não permitiremos que a nossa voz seja abafada.

 

Somos jovens que acordam todas as manhãs, sem nada que comer, para ir à escola ou à universidade, e perseguimos com tenacidade e fadiga a tarefa de conquistar uma formação integral, com muitos quilômetros nas pernas, empenhados na educação, porque este é o melhor instrumento de que dispomos para mudar a nossa nação e o mundo.

 

Somos jovens que, embora obrigados a trabalhar por necessidade, pondo de lado o que amamos e sacrificando os nossos sonhos, ousamos ser uma luz no meio de um povo tão ferido e sedento de Jesus. Somos frágeis também nós e amedrontados com este nosso mundo que cai aos pedaços e sobre o qual gostaríamos de passar uma esponja, mas o olhar amoroso de Deus e a proteção materna de Maria convidam-nos a continuar a pôr a nossa vida a serviço dos outros, sobretudo dos rapazes e das meninas mais pobres e indefesos. Ninguém pode voltar para trás, mas todos podem seguir em frente.

 

Ser jovens salesianos ajuda-nos a responder como discípulos fiéis e corajosos a tudo aquilo que estamos vivendo. Somos verdadeiros “xamãs”, “magos” autênticos, audazes, santos de hoje: de jeans, de tênis e camiseta, como diz o Papa Francisco.

 

Caríssimo padre Ángel e todos os membros da nossa Família Salesiana: a presença de vocês nos dá coragem para fazer a diferença, para continuar a lutar por uma Venezuela justa e santa, apostando tudo no bem dos jovens. Não deixem de nos acompanhar e de acreditar em nós. Obrigado por estarem aqui!”

 

Assim termina este afetuoso testemunho juvenil. Escutar Eusibeth diante de 800 jovens, num quente serão de Caracas, me fez pensar em como e quanto Dom Bosco acreditava nos jovens, nas suas capacidades, nas suas potencialidades, na bondade que há no coração de cada um.

 

E o que acontecia com Dom Bosco há 160 anos, continua a acontecer hoje em toda a parte do mundo. Não é verdade que os jovens de hoje não têm bom coração. Certamente há jovens que se encontram em caminhos de confusão, de escravidão, de morte já em vida… Jovens que precisam mesmo ser “salvos”.

 

Mas há muitos outros, milhões e milhões (e os jovens que encontrei com Eusibeth são a prova disso) que acreditam na vida, na beleza do amor, na beleza da partilha e na plenitude de significado que Deus lhes dá. Sabem que não somos derrotados quando perdemos, mas quando desistimos.

 

É possível ainda hoje pensar e falar assim? Eu afirmo que é possível. Continuem sem medo a fazer o bem, meus bons amigos, e que o nosso Deus os cumule da sua paz.

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