Enxergar o que está escrito na lousa pode parecer uma tarefa elementar dentro de uma sala de aula. Para algumas crianças, porém, as letras perdem os contornos, as palavras se confundem à distância e o esforço para acompanhar uma explicação começa antes mesmo da compreensão do conteúdo. Foi para identificar alunos nessa situação que o Mutirão Oftalmológico examinou 1.597 crianças do 1º ano da rede municipal de ensino de Araçatuba, SP, e entregou 127 pares de óculos no UniSALESIANO.
A cerimônia, realizada no dia 8 de agosto, encerrou mais uma etapa da segunda edição do projeto, que identificou crianças com dificuldades visuais, encaminhou 275 delas para consultas oftalmológicas e garantiu a correção necessária aos casos diagnosticados.
Participaram da entrega o reitor do UniSALESIANO e diretor da Presença Salesiana em Araçatuba, padre Paulo Fernando Vendrame, o pró-reitor de Ensino, Pesquisa e Pós-Graduação, professor doutor André Ornellas, o pró-reitor de Pastoral, padre Paulo Jácomo, e o coordenador do Curso de Medicina do UniSALESIANO, professor Antônio Poletto, além de autoridades, estudantes e familiares.
Durante o mutirão, os atendimentos foram realizados por médicos voluntários em suas clínicas, enquanto os óculos foram doados pela Indústrias Perego.
Quando a dificuldade está nos olhos
A origem do mutirão está em uma questão que nem sempre aparece de imediato no ambiente escolar. Uma criança pode ter dificuldade para ler, copiar o conteúdo da lousa, acompanhar a aula ou brincar; e por trás do comportamento percebido pelos adultos pode existir um problema de visão ainda não diagnosticado.
Nesse ponto, os números do mutirão ajudam a dimensionar uma realidade que costuma permanecer escondida. Das 1.597 crianças avaliadas, 275 precisaram passar pela consulta com um oftalmologista e 127 receberam indicação para uso de óculos.
Para essas crianças a mudança começa em situações cotidianas. A palavra distante ganha contorno, a lousa deixa de exigir esforço para ser compreendida e o livro pode ocupar seu lugar na aprendizagem sem que os olhos imponham uma barreira.
Uma rede para chegar a cada criança
O Mutirão Oftalmológico reuniu Prefeitura, UniSALESIANO, profissionais da saúde, acadêmicos de Medicina, empresas e famílias.
Cada participante assumiu uma parte do processo que começou na avaliação dos estudantes e terminou, nos casos necessários, com os óculos nas mãos das crianças.
A Indústrias Perego forneceu os 127 óculos entregues nesta etapa. A EssilorLuxottica participou com o fornecimento gratuito de lentes destinadas a crianças com casos graves de miopia.
Conforme as informações apresentadas durante o evento, esse tipo de lente pode custar cerca de R$ 13 mil por unidade. A colaboração permitiu atender também situações nas quais o preço do tratamento poderia representar um obstáculo para as famílias.
Da triagem à pesquisa científica
Os dados reunidos durante o mutirão atravessaram os limites do atendimento e chegaram à pesquisa acadêmica. Os estudantes de Medicina do UniSALESIANO Maria Eduarda Rahal Leal, Gabriel Russo Cury e Luiza Fernandes Bueno desenvolveram um trabalho a partir da iniciativa, sob orientação do doutor Rogério Neri Shinsato e com colaboração do doutor Fabrício Teno Braga.
A pesquisa recebeu dois prêmios no XXV Congresso Caipira de Oftalmologia, realizado em São José do Rio Preto. O estudo conquistou o primeiro lugar na categoria “Melhor Pôster” e também o primeiro lugar em “Destaque em Impacto Clínico, Social ou Aplicabilidade”. Assim, os exames realizados nas crianças também produziram dados para a formação dos futuros médicos e para a discussão científica sobre saúde visual.
O padre Paulo Fernando Vendrame relacionou a visão ao conhecimento e à percepção do mundo. Ao abordar o alcance do projeto, ele destacou as possibilidades abertas quando uma criança passa a enxergar aquilo que antes encontrava dificuldade para distinguir.