Dom Bosco conta: O Sistema Preventivo seja algo realmente nosso

Tuesday, 03 December 2013 10:29 Written by 
Todos os meses, o reitor-mor escreve aos leitores do Boletim Salesiano um artigo para leitura e reflexão. No artigo de dezembro, ele escreve como se fosse Dom Bosco, em primeira pessoa, e conta:

Eu estava em Roma no dia 27 de abril de 1876. Naquele dia, escrevi uma carta ao padre Cagliero, que cinco meses antes partira como responsável da primeira expedição missionária na Argentina. E dizia-lhe: “Temos em andamento uma série de projetos que parecem fábulas ou coisas de doidos diante do mundo; contudo, tão logo os iniciamos, Deus os abençoa de modo que tudo corre bem.. Eu, certamente, não navegava em mar de rosas. As dívidas cresciam, surgiam delicadas questões jurídicas nunca resolvidas, as relações muito tensas com o arcebispo de Turim e a inevitável organização de uma jovem Congregação que estava a ampliar projetos e presenças em tantas frentes. Justamente naqueles anos, eu solicitara uma ajuda do governo, apresentando as enormes despesas enfrentadas nas primeiras expedições missionárias. Parecia-me agir corretamente, mesmo porque entre as várias tarefas confiadas aos salesianos, havia o cuidado das famílias italianas transferidas à Argentina. A Gazzetta del Popolo, um jornal de Turim que não economizava ironias contra mim, levantou um vespeiro de críticas e objeções: “Ainda não é suficiente o número imenso de jovens que se “cretinizaram” em Valdocco? Com muitos Dom Bosco todos acabaremos morrendo imbecis”. Aos meus salesianos, eu dizia: “O Senhor espera grandes coisas de vocês... Uma só coisa Deus nos pede: que não nos tornemos indignos da sua grande bondade e misericórdia”.

 

O quarto voto salesiano

Enquanto a Congregação Salesiana se difundia em muitas nações, eu me convencia sempre mais de que o Sistema Preventivo devia ser a nossa herança irrenunciável. Como fundador, sentia-me responsável por esta unidade de pensamento e ação. O Sistema Preventivo não era fruto de estudos acadêmicos, mas de uma experiência de espiritualidade e educação. Aos meus salesianos eu lhes entregava a minha paixão pelos jovens, oferecia-lhes o testemunho de uma experiência de vida. O Sistema Preventivo significava os valores nos quais eu sempre acreditara e que me tinham guiado também nos momentos de dificuldade  e provação.

Nem sempre eu fui plenamente entendido, mas posso afirmar, eu os conhecia bem e sabia que eram bem preparados, atentos e generosos; via-os capazes de sacrifícios também heroicos. Alguns, porém, me desapontaram. Recordo uma situação típica. Estávamos em 1885; quase cego, com as pernas assustadoramente inchadas, eu caminhava inexoravelmente para o fim. Os 593 salesianos (além dos 200 jovenzinhos que se preparavam para o serem!) estavam espalhados pela Itália, França e Espanha. Há 10 anos nos transplantáramos na América do Sul, primeiramente na Argentina, depois no Uruguai e, enfim, no Brasil. As fronteiras dilatavam-se: imenso o campo de trabalho, inimagináveis os sacrifícios feitos e os desafios enfrentados. Não tardaram a chegar a Turim cartas alarmantes. Por delicadeza não eram endereçadas a mim, mas a alguns dos Superiores Maiores. As notícias corriam pelos corredores de Valdocco: e finalmente, as coisas chegaram aos meus ouvidos. Fiquei sabendo, com grande tristeza e desaponto, que em algumas casas da Argentina, de modo especial na de Almagro, não se educava mais segundo o Sistema Preventivo; ali, prevalecia uma pedagogia agressiva, que não dispensava castigos, até físicos. Eu precisava assumir uma posição. Cansado, com o organismo aos pedaços, no calor tórrido de um verão escaldante, entre 6 e 14 de agosto escrevi três cartas: a primeira, a dom Cagliero (era bispo há poucos meses!), a segunda, ao padre Costamagna (diretor de Almagro) e a última a um jovem padre. Escrevendo ao “caro e sempre amado padre Costamagna”, recordei-lhe que “o Sistema Preventivo seja algo realmente nosso”. Reafirmava com esta frase a fidelidade absoluta ao nosso método educativo. Também aos outros, eu recomendei: “caridade, paciência, doçura” e implorei “que cada salesiano se fizesse amigo de todos, fosse fácil no perdoar e não invocasse coisas já perdoadas”. Depois, chegaram outras cartas que me confortaram. Tomei conhecimento de que muitos de meus irmãos na Argentina fizeram cópia destas cartas e continuavam fiéis às orientações contidas nelas. Mais ainda, alguns se obrigaram espontaneamente com uma espécie de voto a viverem o Sistema Preventivo (como se fosse um quarto voto salesiano), e o renovavam todos os meses.

Eu sabia que a jovem Congregação precisava de unidade e estabilidade e que a garantia do seu futuro estava na fidelidade ao método e ao estilo educativo que caracterizara a vida de Valdocco.

 

Com o mesmo coração

Quando em 1872 surgiu o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, não podendo dar-lhes assistência pessoal, que também acreditava necessária, enviara a Mornese um salesiano da minha confiança, o padre Cagliero, com esta orientação: “Conheces o espírito do nosso Oratório, o nosso sistema preventivo e o segredo de fazer-se amar, escutar e obedecer pelos jovens, amando a todos, não magoando a ninguém, e assistindo-os dia e noite com vigilância paterna, caridade paciente e benignidade constante”. Não queria mortificar a iniciativa pessoal e nem favorecer uma repetição monótona de atitudes e ações. O que me pressionava era insistir na fidelidade ao Sistema Preventivo para acompanhar os jovens em seu processo de crescimento vivendo uma caridade que sabe fazer-se amar.

Tinha-o compreendido plenamente o padre Francisco Bodrato, antigo professor em Mornese com quem eu tivera alguns diálogos interessantes ainda em 1864. Depois, ele se fizera salesiano e, em 1876, eu lhe confiei a responsabilidade da segunda expedição missionária. Em uma afetuosa carta escrevera-me uma frase em que dizia: “Nós vivemos de Dom Bosco”. Mais do que me orgulhar disso, essas palavras encheram o meu coração de alegria e esperança. E demonstravam-me, de novo, que o caminho iniciado estava produzindo frutos também em terras distantes.

Em fevereiro de 1885, escrevendo a dom Cagliero, eu sintetizava todo o trabalho educativo em uma expressão: “Fazer-se amar e não fazer-se temer”.

Afloravam à minha mente as palavras misteriosas ouvidas em sonho 60 anos antes e jamais esquecidas: “Não é com pancadas, mas com a mansidão e a caridade que deverás ganhar esses teus amigos”. Já estava compreendendo “tudo”!

Eu via agora o método da bondade e da doçura aceito e vivido pelos meus filhos espirituais em muitas partes do mundo. Sob todos os céus, os jovens encontrariam – eu estava certo disso – outro Dom Bosco em cada salesiano. Com o mesmo coração, com igual amor, com idêntica paixão...

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Dom Bosco conta: O Sistema Preventivo seja algo realmente nosso

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Todos os meses, o reitor-mor escreve aos leitores do Boletim Salesiano um artigo para leitura e reflexão. No artigo de dezembro, ele escreve como se fosse Dom Bosco, em primeira pessoa, e conta:

Eu estava em Roma no dia 27 de abril de 1876. Naquele dia, escrevi uma carta ao padre Cagliero, que cinco meses antes partira como responsável da primeira expedição missionária na Argentina. E dizia-lhe: “Temos em andamento uma série de projetos que parecem fábulas ou coisas de doidos diante do mundo; contudo, tão logo os iniciamos, Deus os abençoa de modo que tudo corre bem.. Eu, certamente, não navegava em mar de rosas. As dívidas cresciam, surgiam delicadas questões jurídicas nunca resolvidas, as relações muito tensas com o arcebispo de Turim e a inevitável organização de uma jovem Congregação que estava a ampliar projetos e presenças em tantas frentes. Justamente naqueles anos, eu solicitara uma ajuda do governo, apresentando as enormes despesas enfrentadas nas primeiras expedições missionárias. Parecia-me agir corretamente, mesmo porque entre as várias tarefas confiadas aos salesianos, havia o cuidado das famílias italianas transferidas à Argentina. A Gazzetta del Popolo, um jornal de Turim que não economizava ironias contra mim, levantou um vespeiro de críticas e objeções: “Ainda não é suficiente o número imenso de jovens que se “cretinizaram” em Valdocco? Com muitos Dom Bosco todos acabaremos morrendo imbecis”. Aos meus salesianos, eu dizia: “O Senhor espera grandes coisas de vocês... Uma só coisa Deus nos pede: que não nos tornemos indignos da sua grande bondade e misericórdia”.

 

O quarto voto salesiano

Enquanto a Congregação Salesiana se difundia em muitas nações, eu me convencia sempre mais de que o Sistema Preventivo devia ser a nossa herança irrenunciável. Como fundador, sentia-me responsável por esta unidade de pensamento e ação. O Sistema Preventivo não era fruto de estudos acadêmicos, mas de uma experiência de espiritualidade e educação. Aos meus salesianos eu lhes entregava a minha paixão pelos jovens, oferecia-lhes o testemunho de uma experiência de vida. O Sistema Preventivo significava os valores nos quais eu sempre acreditara e que me tinham guiado também nos momentos de dificuldade  e provação.

Nem sempre eu fui plenamente entendido, mas posso afirmar, eu os conhecia bem e sabia que eram bem preparados, atentos e generosos; via-os capazes de sacrifícios também heroicos. Alguns, porém, me desapontaram. Recordo uma situação típica. Estávamos em 1885; quase cego, com as pernas assustadoramente inchadas, eu caminhava inexoravelmente para o fim. Os 593 salesianos (além dos 200 jovenzinhos que se preparavam para o serem!) estavam espalhados pela Itália, França e Espanha. Há 10 anos nos transplantáramos na América do Sul, primeiramente na Argentina, depois no Uruguai e, enfim, no Brasil. As fronteiras dilatavam-se: imenso o campo de trabalho, inimagináveis os sacrifícios feitos e os desafios enfrentados. Não tardaram a chegar a Turim cartas alarmantes. Por delicadeza não eram endereçadas a mim, mas a alguns dos Superiores Maiores. As notícias corriam pelos corredores de Valdocco: e finalmente, as coisas chegaram aos meus ouvidos. Fiquei sabendo, com grande tristeza e desaponto, que em algumas casas da Argentina, de modo especial na de Almagro, não se educava mais segundo o Sistema Preventivo; ali, prevalecia uma pedagogia agressiva, que não dispensava castigos, até físicos. Eu precisava assumir uma posição. Cansado, com o organismo aos pedaços, no calor tórrido de um verão escaldante, entre 6 e 14 de agosto escrevi três cartas: a primeira, a dom Cagliero (era bispo há poucos meses!), a segunda, ao padre Costamagna (diretor de Almagro) e a última a um jovem padre. Escrevendo ao “caro e sempre amado padre Costamagna”, recordei-lhe que “o Sistema Preventivo seja algo realmente nosso”. Reafirmava com esta frase a fidelidade absoluta ao nosso método educativo. Também aos outros, eu recomendei: “caridade, paciência, doçura” e implorei “que cada salesiano se fizesse amigo de todos, fosse fácil no perdoar e não invocasse coisas já perdoadas”. Depois, chegaram outras cartas que me confortaram. Tomei conhecimento de que muitos de meus irmãos na Argentina fizeram cópia destas cartas e continuavam fiéis às orientações contidas nelas. Mais ainda, alguns se obrigaram espontaneamente com uma espécie de voto a viverem o Sistema Preventivo (como se fosse um quarto voto salesiano), e o renovavam todos os meses.

Eu sabia que a jovem Congregação precisava de unidade e estabilidade e que a garantia do seu futuro estava na fidelidade ao método e ao estilo educativo que caracterizara a vida de Valdocco.

 

Com o mesmo coração

Quando em 1872 surgiu o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, não podendo dar-lhes assistência pessoal, que também acreditava necessária, enviara a Mornese um salesiano da minha confiança, o padre Cagliero, com esta orientação: “Conheces o espírito do nosso Oratório, o nosso sistema preventivo e o segredo de fazer-se amar, escutar e obedecer pelos jovens, amando a todos, não magoando a ninguém, e assistindo-os dia e noite com vigilância paterna, caridade paciente e benignidade constante”. Não queria mortificar a iniciativa pessoal e nem favorecer uma repetição monótona de atitudes e ações. O que me pressionava era insistir na fidelidade ao Sistema Preventivo para acompanhar os jovens em seu processo de crescimento vivendo uma caridade que sabe fazer-se amar.

Tinha-o compreendido plenamente o padre Francisco Bodrato, antigo professor em Mornese com quem eu tivera alguns diálogos interessantes ainda em 1864. Depois, ele se fizera salesiano e, em 1876, eu lhe confiei a responsabilidade da segunda expedição missionária. Em uma afetuosa carta escrevera-me uma frase em que dizia: “Nós vivemos de Dom Bosco”. Mais do que me orgulhar disso, essas palavras encheram o meu coração de alegria e esperança. E demonstravam-me, de novo, que o caminho iniciado estava produzindo frutos também em terras distantes.

Em fevereiro de 1885, escrevendo a dom Cagliero, eu sintetizava todo o trabalho educativo em uma expressão: “Fazer-se amar e não fazer-se temer”.

Afloravam à minha mente as palavras misteriosas ouvidas em sonho 60 anos antes e jamais esquecidas: “Não é com pancadas, mas com a mansidão e a caridade que deverás ganhar esses teus amigos”. Já estava compreendendo “tudo”!

Eu via agora o método da bondade e da doçura aceito e vivido pelos meus filhos espirituais em muitas partes do mundo. Sob todos os céus, os jovens encontrariam – eu estava certo disso – outro Dom Bosco em cada salesiano. Com o mesmo coração, com igual amor, com idêntica paixão...

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