Dom Bosco conta: Põe-te imediatamente a instruí-los

Wednesday, 06 November 2013 13:41 Written by 
Todos os meses, o reitor-mor escreve aos leitores do Boletim Salesiano um artigo para leitura e reflexão. No artigo de novembro, ele escreve como se fosse Dom Bosco, em primeira pessoa, e conta: “Põe-te imediatamente a instruí-los sobre a fealdade do pecado e a preciosidade da virtude”.   Falar de Jesus Cristo nestes dias é difícil, mas não impossível. Os jovens parecem distraídos e quase inacessíveis sobre temas religiosos. No meu tempo, assim como hoje, o problema não era tanto falar de Jesus, mas o tom e a abordagem. Alguns dos meus contatos com os jovens não se deram na sacristia ou à sombra do campanário. Começaram nas praças de Turim ou em alguma dos muitos becos de seu centro histórico. No início do meu apostolado sacerdotal, meu amigo padre Cafasso, que eu escolhera como diretor espiritual, tinha-me dado um conselho de ouro: “Caminha pela cidade, olha ao teu redor”. Eu devia encontrar os jovens no seu ambiente, aonde eles se reuniam. Se os tivesse esperado na igreja, teria perdido um tempo precioso e mil ocasiões.

Uma batina preta

À primeira vista, eram grosseiros, levianos, às vezes violentos, levados facilmente à briga e ao uso da faca. Parecia-me que andassem em busca de alguma forma de diversão porque, no fundo, não sabiam alegrar-se. Gargalhavam, mas não sorriam. Depois de um palavrão ou uma blasfêmia, depois de uma bravata que desencadeava momentâneos alvoroços de gritos e risadas, caía improvisamente um silêncio irreal, o vazio. Ficavam curiosos, mas não me pareciam aborrecidos pela presença de uma batina preta; muitas vezes, acabava-se em um boteco diante de uma ou mais garrafas de vinho.

Aquilo que, aos olhos dos “sábios” parecia falta de decoro eclesiástico, era para mim ocasião admirável que não podia perder por nada neste mundo. Interessava-me por suas vidas, perguntava sobre suas famílias, ficava sabendo se e onde trabalhavam; depois, lançava uma pergunta sobre a vida cristã e terminava convidando-os a irem ao oratório, quem sabe só para dar uma olhada. Na maioria das vezes, a coisa funcionava. No domingo seguinte encontrava a todos ou quase todos, um deles na fila para receber o pãozinho com a infalível fatia de salame, outro para cumprimentar-me ou dizer-me alguma coisa; outro ainda até mesmo para se confessar. Eu sabia que ia contra a corrente e criava algum mal-estar também entre alguns de meus colegas padres. Mas eu precisava dos jovens. Eu tinha necessidade de amá-los, escutá-los, dedicar-lhes atenção e respeito.

Vivendo entre eles, convencia-me sempre mais de que os jovens buscavam respostas, queriam um encontro verdadeiro e sério com o mundo adulto; não queriam pessoas apenas com o dedo em riste contra eles, em sinal de desaprovação ou condenação. Buscavam adultos capazes de “provocá-los”, de estimulá-los. Mas, sobretudo, capazes de entendê-los e amá-los. Por isso, queriam os adultos no seu cotidiano. Sem pressa. Sem cerimônia. Com os jovens, eu aprendia a ser amigo deles, como aprendera a “ser padre” nos tempos do Colégio Eclesiástico. Entendia que a única nostalgia possível era a nostalgia do futuro, isto é, da esperança. Para alcançar esse ideal, eu dizia: “É preciso que procuremos conhecer os nossos tempos e nos adaptar a ele”. Porque lhes apresentava a vida como caminho de liberdade que deve ser conquistada dia a dia. Recordava-o muitas vezes: “A sabedoria é a arte de bem governar a própria vontade”.

 

Deus o queria

Aos melhores, aos mais generosos, eu acrescentava: “Não percam tempo, façam o bem, façam-no muito e jamais se arrependerão de tê-lo feito”. Com um pouco de desafio, dizia: “Se um pobre padre, com nada ou com menos de nada, perseguido por todos, pôde levar as coisas ao ponto em que estão agora, que bem o Senhor não esperará de 330 indivíduos saudáveis, robustos, de boa vontade, cheios de ciência e com os meios poderosos que agora temos nas mãos?”. Esta última frase eu a pronunciei no início de 1876, durante a reunião anual com os diretores das casas. Tinha ouvido estes meus colaboradores, e encantaram-me as muitas belas coisas que estavam fazendo em várias cidades da Itália, da França e da Argentina.

Tudo tinha começado 30 anos antes no pequeno telheiro Pinardi. Com o coração cheio de emoção e de reconhecimento, revivia a experiência iniciada tendo minha mãe ao lado: “O que havia aqui, onde nós estamos agora reunidos? Nada, realmente nada! Neste lugar e nos arredores havia campos semeados com milho, repolho, algum jardim, e nada mais. Um casebre, ou melhor, um tugúrio, ou uma taberna surgia no meio, miserável ao vê-la de fora, mais miserável dentro. E, além de tudo, era casa de imoralidade. Eu corria de um lado para o outro atrás dos jovens mais indóceis, mais dissipados; riam das coisas da religião, das quais eram muito ignorantes, blasfemando o nome santo de Deus, e eu nada podia fazer... Um pobre padre, sozinho, abandonado por todos, antes pior do que sozinho, porque desprezado e perseguido: tinha um pensamento vago de fazer o bem, aqui, justamente neste lugar, e fazer o bem aos pobres rapazes. Era este o pensamento que orientava todos os meus passos, todas as minhas ações. Parecia, então, um sonho o pensamento do pobre padre, mas Deus realizou, cumpriu os desejos daquele pobrezinho... Isto eu sei: Deus o queria”. E foi esta a esperança, feita de confiança e de prudência, que me sustentou.

Os jovens que conheci pediam, sonhavam um ideal. Quem chegasse primeiro haveria de conquistá-los. Depois de ter gasto a vida por eles, posso afirmar que não se pode generalizar, acusando-os de falta de entusiasmo, como se todos fossem gente sem coração. Nós educadores não podemos fazer estas afirmações porque sabemos que não são verdadeiras. . Eis porque, apoiado em São Francisco de Sales, tive a alegria de oferecer aos jovens uma forma de humanismo elevado ao infinito. Eles conseguiam entender por si mesmos a “fealdade do pecado” quando lhes era apresentada a “beleza da virtude”.

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Dom Bosco conta: Põe-te imediatamente a instruí-los

Wednesday, 06 November 2013 13:41 Written by 
Todos os meses, o reitor-mor escreve aos leitores do Boletim Salesiano um artigo para leitura e reflexão. No artigo de novembro, ele escreve como se fosse Dom Bosco, em primeira pessoa, e conta: “Põe-te imediatamente a instruí-los sobre a fealdade do pecado e a preciosidade da virtude”.   Falar de Jesus Cristo nestes dias é difícil, mas não impossível. Os jovens parecem distraídos e quase inacessíveis sobre temas religiosos. No meu tempo, assim como hoje, o problema não era tanto falar de Jesus, mas o tom e a abordagem. Alguns dos meus contatos com os jovens não se deram na sacristia ou à sombra do campanário. Começaram nas praças de Turim ou em alguma dos muitos becos de seu centro histórico. No início do meu apostolado sacerdotal, meu amigo padre Cafasso, que eu escolhera como diretor espiritual, tinha-me dado um conselho de ouro: “Caminha pela cidade, olha ao teu redor”. Eu devia encontrar os jovens no seu ambiente, aonde eles se reuniam. Se os tivesse esperado na igreja, teria perdido um tempo precioso e mil ocasiões.

Uma batina preta

À primeira vista, eram grosseiros, levianos, às vezes violentos, levados facilmente à briga e ao uso da faca. Parecia-me que andassem em busca de alguma forma de diversão porque, no fundo, não sabiam alegrar-se. Gargalhavam, mas não sorriam. Depois de um palavrão ou uma blasfêmia, depois de uma bravata que desencadeava momentâneos alvoroços de gritos e risadas, caía improvisamente um silêncio irreal, o vazio. Ficavam curiosos, mas não me pareciam aborrecidos pela presença de uma batina preta; muitas vezes, acabava-se em um boteco diante de uma ou mais garrafas de vinho.

Aquilo que, aos olhos dos “sábios” parecia falta de decoro eclesiástico, era para mim ocasião admirável que não podia perder por nada neste mundo. Interessava-me por suas vidas, perguntava sobre suas famílias, ficava sabendo se e onde trabalhavam; depois, lançava uma pergunta sobre a vida cristã e terminava convidando-os a irem ao oratório, quem sabe só para dar uma olhada. Na maioria das vezes, a coisa funcionava. No domingo seguinte encontrava a todos ou quase todos, um deles na fila para receber o pãozinho com a infalível fatia de salame, outro para cumprimentar-me ou dizer-me alguma coisa; outro ainda até mesmo para se confessar. Eu sabia que ia contra a corrente e criava algum mal-estar também entre alguns de meus colegas padres. Mas eu precisava dos jovens. Eu tinha necessidade de amá-los, escutá-los, dedicar-lhes atenção e respeito.

Vivendo entre eles, convencia-me sempre mais de que os jovens buscavam respostas, queriam um encontro verdadeiro e sério com o mundo adulto; não queriam pessoas apenas com o dedo em riste contra eles, em sinal de desaprovação ou condenação. Buscavam adultos capazes de “provocá-los”, de estimulá-los. Mas, sobretudo, capazes de entendê-los e amá-los. Por isso, queriam os adultos no seu cotidiano. Sem pressa. Sem cerimônia. Com os jovens, eu aprendia a ser amigo deles, como aprendera a “ser padre” nos tempos do Colégio Eclesiástico. Entendia que a única nostalgia possível era a nostalgia do futuro, isto é, da esperança. Para alcançar esse ideal, eu dizia: “É preciso que procuremos conhecer os nossos tempos e nos adaptar a ele”. Porque lhes apresentava a vida como caminho de liberdade que deve ser conquistada dia a dia. Recordava-o muitas vezes: “A sabedoria é a arte de bem governar a própria vontade”.

 

Deus o queria

Aos melhores, aos mais generosos, eu acrescentava: “Não percam tempo, façam o bem, façam-no muito e jamais se arrependerão de tê-lo feito”. Com um pouco de desafio, dizia: “Se um pobre padre, com nada ou com menos de nada, perseguido por todos, pôde levar as coisas ao ponto em que estão agora, que bem o Senhor não esperará de 330 indivíduos saudáveis, robustos, de boa vontade, cheios de ciência e com os meios poderosos que agora temos nas mãos?”. Esta última frase eu a pronunciei no início de 1876, durante a reunião anual com os diretores das casas. Tinha ouvido estes meus colaboradores, e encantaram-me as muitas belas coisas que estavam fazendo em várias cidades da Itália, da França e da Argentina.

Tudo tinha começado 30 anos antes no pequeno telheiro Pinardi. Com o coração cheio de emoção e de reconhecimento, revivia a experiência iniciada tendo minha mãe ao lado: “O que havia aqui, onde nós estamos agora reunidos? Nada, realmente nada! Neste lugar e nos arredores havia campos semeados com milho, repolho, algum jardim, e nada mais. Um casebre, ou melhor, um tugúrio, ou uma taberna surgia no meio, miserável ao vê-la de fora, mais miserável dentro. E, além de tudo, era casa de imoralidade. Eu corria de um lado para o outro atrás dos jovens mais indóceis, mais dissipados; riam das coisas da religião, das quais eram muito ignorantes, blasfemando o nome santo de Deus, e eu nada podia fazer... Um pobre padre, sozinho, abandonado por todos, antes pior do que sozinho, porque desprezado e perseguido: tinha um pensamento vago de fazer o bem, aqui, justamente neste lugar, e fazer o bem aos pobres rapazes. Era este o pensamento que orientava todos os meus passos, todas as minhas ações. Parecia, então, um sonho o pensamento do pobre padre, mas Deus realizou, cumpriu os desejos daquele pobrezinho... Isto eu sei: Deus o queria”. E foi esta a esperança, feita de confiança e de prudência, que me sustentou.

Os jovens que conheci pediam, sonhavam um ideal. Quem chegasse primeiro haveria de conquistá-los. Depois de ter gasto a vida por eles, posso afirmar que não se pode generalizar, acusando-os de falta de entusiasmo, como se todos fossem gente sem coração. Nós educadores não podemos fazer estas afirmações porque sabemos que não são verdadeiras. . Eis porque, apoiado em São Francisco de Sales, tive a alegria de oferecer aos jovens uma forma de humanismo elevado ao infinito. Eles conseguiam entender por si mesmos a “fealdade do pecado” quando lhes era apresentada a “beleza da virtude”.

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