Outrossim, estão numa fase fundamental do desenvolvimento humano, na qual passam por intensas transformações físicas, psíquicas e sociais, fatores esses que vão moldar o modo como eles se veem e se percebem no mundo, influenciando decisivamente as suas escolhas.
Nesse contexto, muitos buscam em Deus compreender qual sua vocação, recorrendo a encontros vocacionais oferecidos por instituições religiosas ligadas à Igreja Católica, que podem assumir um papel fundamental, quando estão preparadas para oferecer um itinerário bem estruturado para auxiliá-los nessa busca. Sob tal viés, este texto apresenta três aspectos particulares para discussão: autoconhecimento, projeto de vida e a riqueza da vida religiosa consagrada.
Observação e reflexão
É evidente que, no processo de discernimento vocacional, o jovem precisa se debruçar no autoconhecimento, que consiste num processo contínuo de observação e reflexão para compreender seus sentimentos, valores, comportamentos, pontos fortes e limitações. Desse modo, suscita uma pergunta que deve fazer para si mesmo: Quem sou eu? Francisco de Sales, com sua célebre frase “Sê quem és, e sê-o bem, para honra do Artista Mestre de quem és obra”, ensina que Deus criou as pessoas para serem realmente elas mesmas, pois para ele uma pessoa não deve semear seus desejos no jardim alheio, mas cultivar os seus da melhor maneira possível.
Nesse sentido, essa lição é um bom ponto de partida para que o jovem possa realizar um bom discernimento vocacional, pois quando se lança num itinerário de crescimento humano e espiritual para saber quem é, e se conecta com o seu coração bebendo dessa fonte interior, pode não incorrer no erro que muitos jovens incorrem, que é o de desejar “ser outro que não é”, isto é, viver a vida de outra pessoa, abrindo assim mão da sua identidade.
Construção do projeto de vida
Sob esse viés, é válido destacar que, concomitantemente ao conhecimento de si, é preciso que o jovem se lance também na construção do seu projeto de vida, refletindo sobre seus sonhos, valores, competências e caminhos possíveis para o futuro, passando a estabelecer metas e ações para alcançá-las: no curto, médio e longo prazo. Trata-se de um planejamento estratégico para concretizar sonhos a partir de ações concretas.
Nessa busca, os obstáculos são inevitáveis, tais como: insegurança, procrastinação, excesso de cobrança, medo de errar ou não corresponder às expectativas, dificuldades de lidar com frustrações e mudanças de rota. Em meio a isso, é importante que o jovem tenha a clareza de que o projeto de vida não deve ser uma elaboração individual, uma vez que é empreendido num contexto coletivo, o que requer contar com o apoio de amigos, familiares e, a depender do caso, até mesmo de profissionais, visto que o êxito está relacionado também à saúde física e psíquica.
Dom gratuito de Deus
Nesse contexto, a vida religiosa consagrada, entendida como um dom gratuito de Deus, se apresenta para os jovens como uma riqueza, um caminho promissor de realização pessoal no serviço ao próximo, quando refletido à luz da frase da serva de Deus Madre Maria José de Jesus: “une a tua vontade à de Deus e serás feliz”, pois a vontade de Deus, de acordo com a passagem bíblica do livro do profeta Jeremias, é que todos se coloquem a serviço do Seu reino, ou seja, da evangelização “Antes de formar-te no seio da tua mãe, eu já o conhecia, antes de saíres do ventre, eu te consagrei e te fiz profeta para as nações” (Jr 1,5).
Ademais, a Igreja apresenta ao jovem muitos carismas, que, enquanto graças especiais do Espírito Santo, cooperam em sua diversidade e complementariedade para o bem comum. Assim sendo, seja em carismas, como por exemplo, de revelação e inspiração ou de serviço e pastorais, o jovem pode, a exemplo de muitas pessoas que ao longo da história sentiram este forte chamado a dedicar sua vida ao serviço do próximo, encontrar um sentido de vida.
O itinerário de Dom Bosco
Foi esse o itinerário percorrido pelo jovem Dom Bosco, quando buscou no autoconhecimento entender como, diante de suas limitações, poderia se tornar um ser humano melhor em resposta aos ensinamentos que recebeu do seu futuro melhor amigo Luís Comollo, de quem, após defendê-lo de agressões físicas que sofria de meninos da sua escola, ouviu as seguintes palavras: “tua força me espanta: lembra-te, porém, que Deus não a deu para massacrar os colegas. Ele quer que nos amemos, que perdoemos, que façamos o bem a quem fez o mal”.
Esse episódio, que em muitos aspectos remetia ao sonho dos 9 anos, ajudou Dom Bosco a entender que o seu projeto de vida estava relacionado à prática do bem, o que lhe exigiria esforço contínuo para entregar ao mundo o que de melhor o seu coração podia oferecer, que é o amor. Dentre os muitos caminhos que vislumbrou para realizar esse projeto, um pulsou mais forte no seu coração, o da vida religiosa consagrada. Deste modo, seguiu seu caminho, depositando toda sua confiança em Deus e muito atento a todas as pessoas que Ele foi colocando em seu caminho para ajudá-lo nesse processo. O resultado foi uma vida e vocação que dão um testemunho lindo e maravilhoso para a humanidade da riqueza da vida religiosa consagrada.
Tendo em vista os aspectos observados, conclui-se que o jovem encontra-se caminhando por uma fase da vida que é desafiadora, e que o coloca diante da necessidade, a partir do autoconhecimento e importantes reflexões sobre o futuro, de fazer escolhas sobre quais caminhos seguir, recursos que deve levar e pessoas com quem deve contar. Neste sentido, é necessário que o jovem tenha a consciência de que veio de Deus, porque antes de nascer já estava nos seus pensamentos e coração, razão pela qual deve viver para Ele no amor.
Nessa perspectiva, o jovem pode encontrar na riqueza da vida religiosa a oportunidade de responder aos anseios do seu coração, pois viver a serviço do bem comum, ajudando a transformar o mundo num lugar melhor, é viver no amor e fazer opção por esse magnífico projeto de vida é viver no amor.