Cineastas visitam o Brasil para produção de longa-metragem sobre Servos de Deus Destaque

Quinta, 12 Fevereiro 2026 15:53 Escrito por  Euclides Fernandes
Uma comitiva de profissionais europeus da Don Bosco Medien esteve no Brasil, entre os dias 2 e 10 de fevereiro, para aprofundar a pesquisa sobre o padre Rodolfo Lunkenbein e o indígena Simão Bororo, assassinados em Meruri em 1976.


O grupo, liderado pelo padre Johannes Kaufmann, SDB, visitou a Inspetoria Salesiana de Campo Grande e missões indígenas no Mato Grosso com o objetivo de produzir um longa-metragem de ficção, documentários e podcasts que resgatem a memória do martírio e deem visibilidade global à história.

A reconstrução histórica utilizará relatos de testemunhas oculares para encenar os acontecimentos de 1976 com precisão, sem evitar temas difíceis e buscando trazer perspectivas indígenas inéditas.

Devido à busca por recursos e à elaboração do roteiro, que levará dois anos, a previsão de lançamento está entre 2030 e 2031.

Documentos que revelam um destino

A pesquisa nos arquivos da inspetoria proporcionou à equipe o contato com documentos que causaram forte impacto. Entre as peças analisadas, destaca-se uma lista de nomes escrita à mão pelo padre Rodolfo momentos antes de seu assassinato.

Para o padre João Bosco Monteiro Maciel, vice-postulador da causa de martírio, essa é “a peça mais importante” do acervo. Anna Haupt, responsável pelo marketing, descreveu a carga emocional do momento: “vimos o documento onde se pode dizer que ele praticamente assinou sua própria morte. Acho isso fascinante”.

Testemunhos em Meruri

Durante o tempo que passou na aldeia de Meruri, o diretor da Don Bosco Medien, Ferdinand Auhser, colheu depoimentos que trouxeram perspectivas inéditas para o roteiro.

O contato direto com os indígenas permitiu à equipe ouvir relatos de uma testemunha ocular do crime, um amigo pessoal de Simão Bororo que presenciou os acontecimentos. Ferdinand ressaltou a precisão do depoimento: “Ele descreveu com muita precisão como os fatos ocorreram… com base nesse relato, é muito bonito reconstruir e encenar o que aconteceu naquele dia”.

Complexidade da educação salesiana

O mesmo relato trouxe à tona a dificuldade enfrentada pelos indígenas no sistema de internatos salesianos do passado. O amigo de Simão descreveu como a língua e a cultura Boe-Bororo acabavam sendo reprimidas pela educação formal da época. Ferdinand enfatizou que a produção pretende abordar esses temas complexos no filme para trazer “novas perspectivas” sobre a história, sem evitar os aspectos difíceis do passado.

O caminho até o Vaticano

O ex-conselheiro geral para a Comunicação Social, padre Gildásio Mendes, propôs uma dimensão política e espiritual maior para o projeto. Ele sugeriu que, assim que o roteiro estiver pronto, a equipe busque uma audiência com o Papa Leão XIV no Vaticano, acompanhada pelo Reitor-mor dos Salesianos, o padre Fabio Attard.

Segundo o padre Gildásio, o Papa terá interesse no projeto por ser ex-missionário e pelo fato de a obra destacar o legado ecológico da luta pela demarcação das terras indígenas.

Preservação ambiental e demarcação territorial

O legado deixado pelo padre Rodolfo e por Simão Bororo está relacionado à conquista e demarcação das terras para o povo Boe-Bororo. A luta para que as áreas indígenas fossem reconhecidas garantiu a proteção desses espaços contra a exploração externa, gerando um efeito de sustentabilidade para a região.

Padre Gildásio afirma que o trabalho da dupla deve ser lido sob uma ótica ecológica, pois a permanência dos indígenas em suas terras tradicionais é fundamental para a manutenção do equilíbrio ambiental.

Os cineastas pretendem destacar esse aspecto no filme para mostrar que a causa de Rodolfo e Simão era também uma defesa ativa do meio ambiente que ressoa com as preocupações ecológicas atuais.

Intervenção artística

O artista Mika Springwald, um dos integrantes da equipe, realizará uma intervenção artística em solo brasileiro para honrar a memória dos dois mártires. A obra, que será utilizada para estabelecer um diálogo visual com a história do martírio e a herança deixada pelos “Servos de Deus”, integrará o documentário produzido pela equipe alemã. Essa iniciativa artística soma-se ao longa-metragem de ficção e aos podcasts, compondo uma estratégia multiplataforma que busca tornar o legado acessível a um grande público global.

Financiamento e coprodução internacional

A produção buscará financiamento governamental na Alemanha e na Áustria. A equipe planeja estabelecer uma coprodução internacional que inclua o Brasil e a Itália, fortalecendo o caráter global da história.

Uma ponte entre culturas

Para Mirjam Unger, a amizade entre Rodolfo e Simão simboliza uma “ponte entre as culturas” indígena, brasileira e europeia. A diretora ressalta a importância de revisitar o caso, lembrando que “os assassinos nunca foram julgados” e que é necessário olhar com cuidado para o que aconteceu.

O objetivo da produção é dar a mesma importância a ambos, destacando o papel fundamental do povo Bororo na história e na luta por seus direitos.

 

Acolhimento nas comunidades

A recepção da equipe nas comunidades indígenas e salesianas foi marcada pelo acolhimento e pela disposição em colaborar com a pesquisa. Em Meruri, o grupo ficou hospedado na missão salesiana, onde foram recebidos pelos padres salesianos Ângelo Cenerino e João Vítor Ortiz, e por uma equipe de mulheres liderada pela senhora Bernadete.

Durante os três dias e meio na aldeia, a equipe realizou conversas e entrevistas com indígenas, sacerdotes e irmãs, tendo acesso a relatos íntimos e detalhes sobre o dia do martírio.

O grupo planeja retornar ao Brasil em julho deste ano para registrar as celebrações dos 50 anos da morte dos Servos de Deus, dando continuidade ao trabalho que deve levar cerca de cinco anos para ser concluído.

Acolhida, contrastes culturais e a memória viva do padre Lunkenbein

Para Anna Haupt, a mais jovem integrante da equipe europeia, a viagem começou com boas expectativas, mas de forma inusitada. “A viagem ao Brasil por causa de uma possível beatificação e do encontro com um povo indígena parecia um pouco louca, mas também única”, relatou. Segundo ela, a motivação foi tanto profissional quanto pessoal, impulsionada pela singularidade da experiência e pela oportunidade de conhecer de perto uma realidade até então distante.

Segundo os relatos, o religioso teve papel fundamental no apoio aos Bororo para a construção de uma vida mais autônoma, defendeu os mais pobres e vulneráveis e acabou sendo assassinado por causa de sua atuação. “Ouvir tudo isso, especialmente de uma testemunha que explicou os fatos de forma tão viva, nos fez compreender a dimensão humana e histórica dessa trajetória”, concluiu Anna, ressaltando que a história de padre Lunkenbein deixa um legado de coragem, solidariedade e compromisso com os mais frágeis.


Por: Euclides Fernandes
Missão Salesiana de Mato Grosso

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Última modificação em Quinta, 12 Fevereiro 2026 16:11

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Cineastas visitam o Brasil para produção de longa-metragem sobre Servos de Deus Destaque

Quinta, 12 Fevereiro 2026 15:53 Escrito por  Euclides Fernandes
Uma comitiva de profissionais europeus da Don Bosco Medien esteve no Brasil, entre os dias 2 e 10 de fevereiro, para aprofundar a pesquisa sobre o padre Rodolfo Lunkenbein e o indígena Simão Bororo, assassinados em Meruri em 1976.


O grupo, liderado pelo padre Johannes Kaufmann, SDB, visitou a Inspetoria Salesiana de Campo Grande e missões indígenas no Mato Grosso com o objetivo de produzir um longa-metragem de ficção, documentários e podcasts que resgatem a memória do martírio e deem visibilidade global à história.

A reconstrução histórica utilizará relatos de testemunhas oculares para encenar os acontecimentos de 1976 com precisão, sem evitar temas difíceis e buscando trazer perspectivas indígenas inéditas.

Devido à busca por recursos e à elaboração do roteiro, que levará dois anos, a previsão de lançamento está entre 2030 e 2031.

Documentos que revelam um destino

A pesquisa nos arquivos da inspetoria proporcionou à equipe o contato com documentos que causaram forte impacto. Entre as peças analisadas, destaca-se uma lista de nomes escrita à mão pelo padre Rodolfo momentos antes de seu assassinato.

Para o padre João Bosco Monteiro Maciel, vice-postulador da causa de martírio, essa é “a peça mais importante” do acervo. Anna Haupt, responsável pelo marketing, descreveu a carga emocional do momento: “vimos o documento onde se pode dizer que ele praticamente assinou sua própria morte. Acho isso fascinante”.

Testemunhos em Meruri

Durante o tempo que passou na aldeia de Meruri, o diretor da Don Bosco Medien, Ferdinand Auhser, colheu depoimentos que trouxeram perspectivas inéditas para o roteiro.

O contato direto com os indígenas permitiu à equipe ouvir relatos de uma testemunha ocular do crime, um amigo pessoal de Simão Bororo que presenciou os acontecimentos. Ferdinand ressaltou a precisão do depoimento: “Ele descreveu com muita precisão como os fatos ocorreram… com base nesse relato, é muito bonito reconstruir e encenar o que aconteceu naquele dia”.

Complexidade da educação salesiana

O mesmo relato trouxe à tona a dificuldade enfrentada pelos indígenas no sistema de internatos salesianos do passado. O amigo de Simão descreveu como a língua e a cultura Boe-Bororo acabavam sendo reprimidas pela educação formal da época. Ferdinand enfatizou que a produção pretende abordar esses temas complexos no filme para trazer “novas perspectivas” sobre a história, sem evitar os aspectos difíceis do passado.

O caminho até o Vaticano

O ex-conselheiro geral para a Comunicação Social, padre Gildásio Mendes, propôs uma dimensão política e espiritual maior para o projeto. Ele sugeriu que, assim que o roteiro estiver pronto, a equipe busque uma audiência com o Papa Leão XIV no Vaticano, acompanhada pelo Reitor-mor dos Salesianos, o padre Fabio Attard.

Segundo o padre Gildásio, o Papa terá interesse no projeto por ser ex-missionário e pelo fato de a obra destacar o legado ecológico da luta pela demarcação das terras indígenas.

Preservação ambiental e demarcação territorial

O legado deixado pelo padre Rodolfo e por Simão Bororo está relacionado à conquista e demarcação das terras para o povo Boe-Bororo. A luta para que as áreas indígenas fossem reconhecidas garantiu a proteção desses espaços contra a exploração externa, gerando um efeito de sustentabilidade para a região.

Padre Gildásio afirma que o trabalho da dupla deve ser lido sob uma ótica ecológica, pois a permanência dos indígenas em suas terras tradicionais é fundamental para a manutenção do equilíbrio ambiental.

Os cineastas pretendem destacar esse aspecto no filme para mostrar que a causa de Rodolfo e Simão era também uma defesa ativa do meio ambiente que ressoa com as preocupações ecológicas atuais.

Intervenção artística

O artista Mika Springwald, um dos integrantes da equipe, realizará uma intervenção artística em solo brasileiro para honrar a memória dos dois mártires. A obra, que será utilizada para estabelecer um diálogo visual com a história do martírio e a herança deixada pelos “Servos de Deus”, integrará o documentário produzido pela equipe alemã. Essa iniciativa artística soma-se ao longa-metragem de ficção e aos podcasts, compondo uma estratégia multiplataforma que busca tornar o legado acessível a um grande público global.

Financiamento e coprodução internacional

A produção buscará financiamento governamental na Alemanha e na Áustria. A equipe planeja estabelecer uma coprodução internacional que inclua o Brasil e a Itália, fortalecendo o caráter global da história.

Uma ponte entre culturas

Para Mirjam Unger, a amizade entre Rodolfo e Simão simboliza uma “ponte entre as culturas” indígena, brasileira e europeia. A diretora ressalta a importância de revisitar o caso, lembrando que “os assassinos nunca foram julgados” e que é necessário olhar com cuidado para o que aconteceu.

O objetivo da produção é dar a mesma importância a ambos, destacando o papel fundamental do povo Bororo na história e na luta por seus direitos.

 

Acolhimento nas comunidades

A recepção da equipe nas comunidades indígenas e salesianas foi marcada pelo acolhimento e pela disposição em colaborar com a pesquisa. Em Meruri, o grupo ficou hospedado na missão salesiana, onde foram recebidos pelos padres salesianos Ângelo Cenerino e João Vítor Ortiz, e por uma equipe de mulheres liderada pela senhora Bernadete.

Durante os três dias e meio na aldeia, a equipe realizou conversas e entrevistas com indígenas, sacerdotes e irmãs, tendo acesso a relatos íntimos e detalhes sobre o dia do martírio.

O grupo planeja retornar ao Brasil em julho deste ano para registrar as celebrações dos 50 anos da morte dos Servos de Deus, dando continuidade ao trabalho que deve levar cerca de cinco anos para ser concluído.

Acolhida, contrastes culturais e a memória viva do padre Lunkenbein

Para Anna Haupt, a mais jovem integrante da equipe europeia, a viagem começou com boas expectativas, mas de forma inusitada. “A viagem ao Brasil por causa de uma possível beatificação e do encontro com um povo indígena parecia um pouco louca, mas também única”, relatou. Segundo ela, a motivação foi tanto profissional quanto pessoal, impulsionada pela singularidade da experiência e pela oportunidade de conhecer de perto uma realidade até então distante.

Segundo os relatos, o religioso teve papel fundamental no apoio aos Bororo para a construção de uma vida mais autônoma, defendeu os mais pobres e vulneráveis e acabou sendo assassinado por causa de sua atuação. “Ouvir tudo isso, especialmente de uma testemunha que explicou os fatos de forma tão viva, nos fez compreender a dimensão humana e histórica dessa trajetória”, concluiu Anna, ressaltando que a história de padre Lunkenbein deixa um legado de coragem, solidariedade e compromisso com os mais frágeis.


Por: Euclides Fernandes
Missão Salesiana de Mato Grosso

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