Virtudes e vícios; atitudes e hábitos

Tuesday, 04 November 2014 21:16 Written by 
Atitude é a maneira constante de ser. Hábito é a maneira constante de fazer. O mais importante não são os hábitos, mas as atitudes. É comum encontramos hábitos sem atitudes. Às vezes, de tanto repetir as coisas, podemos esquecer porque as estamos fazendo. Por detrás de um hábito pode não haver atitude. O que deve mudar é o hábito e não a atitude. Quem educa deve preocupar-se em criar bons hábitos, mas deve preocupar-se muito mais em criar excelentes atitudes. Hábito e atitude nos remetem a refletir sobre virtudes e vícios. A virtude é o hábito de fazer o bem. O vício é o hábito de fazer o mal. Desde sempre se fala em pecados ou vícios capitais. Eles são capitais porque são fonte de muitos outros vícios. A literatura nos apresenta os sete vícios capitais: ira, gula, soberba, preguiça, avareza, luxúria, inveja. Há livros e filmes sobre isso. Nossa sociedade de consumo está gravitando ao redor dos chamados vícios ou pecados capitais. Sem eles, a sociedade, marcada pelo consumismo na lógica do desejo, não pode funcionar. Mas não é sobre isto que eu gostaria de refletir. Há possibilidade, sim, de transformarmos estes vícios em virtudes. Se te derem um limão, faze uma limonada.

Ira

Aira deixa de ser pecado e se transforma em virtude quando significa capacidade de indignar-se com a injustiça, com a banalização do mal. Ela se transforma em virtude quando significa paixão pela vida e pelo Senhor da vida, ânsia de fazer o bem vencer, capacidade de se entregar radicalmente à missão. No sul do Brasil existem duas expressões que são o contrário disto que estamos falando: boca mole e boca aberta. Uma pessoa boca mole é aquela que não sai do lugar, que não luta, não se apaixona por nenhuma causa.

 

Luxúria

A luxúria se transforma em virtude quando significa capacidade de apaixonar-se, escolher uma pessoa amada e viver intensamente sua afetividade e sexualidade. Sexo e afetividade são virtudes quando vividos na perspectiva da promoção e realização do outro e de si mesmo.

 

Preguiça

A preguiça pode ser vista e vivida na perspectiva do tempo livre e do lazer. É muito interessante que, hoje, o lazer esteja colocado entre as necessidades básicas do ser humano. Toda pessoa tem direito ao lazer. Saber dosar tempo livre e trabalho é uma grande virtude. Tempo é dinheiro, diz a sociedade capitalista. Sim, é isso, mas também é gratuidade. É preciso ser gratuito, sem ser supérfluo.

 

Orgulho

O orgulho é a capacidade de sentir-se bem com o próprio sucesso e com o sucesso do próximo. A baixa autoestima é deletéria para a pessoa, para a convivência social e para a cidadania. A alta autoestima realista faz bem para todos e levanta o astral de todos. Viver sem complexo de culpa, mas com grande senso de responsabilidade favorece o orgulho sadio. Sei reconhecer quando erro, mas também sei reconhecer quando acerto.

 

Inveja

A inveja pode significar a capacidade de ser mexido pelo sucesso do outro. Minha inveja é estímulo paraconviver como bem-estar do outro. Hoje se fala muito em inteligências múltiplas. Nem todos são bons em tudo. Há espaço para todos. Saber conviver com o sucesso do outro é uma grande virtude. No popular se fala em santa inveja. Eu não sei tocar violão, mas aprecio quem sabe fazê-lo e tenho inveja de quem sabe tocar. Isto é fonte de alegria para mim e não me deprime ou rebaixa. “Eu tenho inveja de você” pode significar “você me estimula, você é exemplo de vida para mim...”.

 

Avareza

A avareza como vício é ausência de partilha, esganação. No entanto, é também capacidade de poupança, capacidade de gerir bem os bens pessoais, familiares, empresariais e sociais. O esbanjamento e o consumismo são deletérios para a sociedade. Consumir sem ser consumista é uma grande virtude. Avareza é também fugir do crédito fácil que compromete o futuro e do cartão de crédito que compromete radicalmente as finanças pessoais e familiares. Poupar é virtude desde que na linha do compromisso pessoal, familiar e cidadão.

 

Gula

Finalmente, a gula como vício é fonte de doenças e, no dia seguinte, produz ressaca e vazio. Como virtude, ela se transforma na capacidade de alimentar-se bem, de criar hábitos alimentares sadios e adequados. Uma boa alimentação substitui ou diminui a utilização da farmácia e o consumo de remédios. Comer bem não é comer em demasia, mas comer adequadamente. Um dos cinco sentidos humanos é o paladar. Ele foi feito para saborear os alimentos. Isso faz parte de nossa natureza. Então... a bulimia e a anorexia são doenças modernas de quem não sabe alimentar-se adequadamente.

 

Concluindo...

Concordo que os sete vícios podem se transformar em virtudes desde que vividos na lógica do amor, da partilha, da solidariedade. É interessante que esses vícios estão ligados a paixões fundamentais da pessoa humana. Uma vida sem paixão não é digna de ser vivida. Essas paixões se tornam vício e, portanto, pecado, quando escapam do quadro da racionalidade e do amor. Apaixonar-se pelo outro, pelos outros, é virtude porque estimula a convivência e torna mais humano nosso viver.

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Virtudes e vícios; atitudes e hábitos

Tuesday, 04 November 2014 21:16 Written by 
Atitude é a maneira constante de ser. Hábito é a maneira constante de fazer. O mais importante não são os hábitos, mas as atitudes. É comum encontramos hábitos sem atitudes. Às vezes, de tanto repetir as coisas, podemos esquecer porque as estamos fazendo. Por detrás de um hábito pode não haver atitude. O que deve mudar é o hábito e não a atitude. Quem educa deve preocupar-se em criar bons hábitos, mas deve preocupar-se muito mais em criar excelentes atitudes. Hábito e atitude nos remetem a refletir sobre virtudes e vícios. A virtude é o hábito de fazer o bem. O vício é o hábito de fazer o mal. Desde sempre se fala em pecados ou vícios capitais. Eles são capitais porque são fonte de muitos outros vícios. A literatura nos apresenta os sete vícios capitais: ira, gula, soberba, preguiça, avareza, luxúria, inveja. Há livros e filmes sobre isso. Nossa sociedade de consumo está gravitando ao redor dos chamados vícios ou pecados capitais. Sem eles, a sociedade, marcada pelo consumismo na lógica do desejo, não pode funcionar. Mas não é sobre isto que eu gostaria de refletir. Há possibilidade, sim, de transformarmos estes vícios em virtudes. Se te derem um limão, faze uma limonada.

Ira

Aira deixa de ser pecado e se transforma em virtude quando significa capacidade de indignar-se com a injustiça, com a banalização do mal. Ela se transforma em virtude quando significa paixão pela vida e pelo Senhor da vida, ânsia de fazer o bem vencer, capacidade de se entregar radicalmente à missão. No sul do Brasil existem duas expressões que são o contrário disto que estamos falando: boca mole e boca aberta. Uma pessoa boca mole é aquela que não sai do lugar, que não luta, não se apaixona por nenhuma causa.

 

Luxúria

A luxúria se transforma em virtude quando significa capacidade de apaixonar-se, escolher uma pessoa amada e viver intensamente sua afetividade e sexualidade. Sexo e afetividade são virtudes quando vividos na perspectiva da promoção e realização do outro e de si mesmo.

 

Preguiça

A preguiça pode ser vista e vivida na perspectiva do tempo livre e do lazer. É muito interessante que, hoje, o lazer esteja colocado entre as necessidades básicas do ser humano. Toda pessoa tem direito ao lazer. Saber dosar tempo livre e trabalho é uma grande virtude. Tempo é dinheiro, diz a sociedade capitalista. Sim, é isso, mas também é gratuidade. É preciso ser gratuito, sem ser supérfluo.

 

Orgulho

O orgulho é a capacidade de sentir-se bem com o próprio sucesso e com o sucesso do próximo. A baixa autoestima é deletéria para a pessoa, para a convivência social e para a cidadania. A alta autoestima realista faz bem para todos e levanta o astral de todos. Viver sem complexo de culpa, mas com grande senso de responsabilidade favorece o orgulho sadio. Sei reconhecer quando erro, mas também sei reconhecer quando acerto.

 

Inveja

A inveja pode significar a capacidade de ser mexido pelo sucesso do outro. Minha inveja é estímulo paraconviver como bem-estar do outro. Hoje se fala muito em inteligências múltiplas. Nem todos são bons em tudo. Há espaço para todos. Saber conviver com o sucesso do outro é uma grande virtude. No popular se fala em santa inveja. Eu não sei tocar violão, mas aprecio quem sabe fazê-lo e tenho inveja de quem sabe tocar. Isto é fonte de alegria para mim e não me deprime ou rebaixa. “Eu tenho inveja de você” pode significar “você me estimula, você é exemplo de vida para mim...”.

 

Avareza

A avareza como vício é ausência de partilha, esganação. No entanto, é também capacidade de poupança, capacidade de gerir bem os bens pessoais, familiares, empresariais e sociais. O esbanjamento e o consumismo são deletérios para a sociedade. Consumir sem ser consumista é uma grande virtude. Avareza é também fugir do crédito fácil que compromete o futuro e do cartão de crédito que compromete radicalmente as finanças pessoais e familiares. Poupar é virtude desde que na linha do compromisso pessoal, familiar e cidadão.

 

Gula

Finalmente, a gula como vício é fonte de doenças e, no dia seguinte, produz ressaca e vazio. Como virtude, ela se transforma na capacidade de alimentar-se bem, de criar hábitos alimentares sadios e adequados. Uma boa alimentação substitui ou diminui a utilização da farmácia e o consumo de remédios. Comer bem não é comer em demasia, mas comer adequadamente. Um dos cinco sentidos humanos é o paladar. Ele foi feito para saborear os alimentos. Isso faz parte de nossa natureza. Então... a bulimia e a anorexia são doenças modernas de quem não sabe alimentar-se adequadamente.

 

Concluindo...

Concordo que os sete vícios podem se transformar em virtudes desde que vividos na lógica do amor, da partilha, da solidariedade. É interessante que esses vícios estão ligados a paixões fundamentais da pessoa humana. Uma vida sem paixão não é digna de ser vivida. Essas paixões se tornam vício e, portanto, pecado, quando escapam do quadro da racionalidade e do amor. Apaixonar-se pelo outro, pelos outros, é virtude porque estimula a convivência e torna mais humano nosso viver.

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