Entre a esperança e o esperançar Featured

Wednesday, 11 November 2020 13:15 Written by  Pe. Agnaldo Soares Lima, SDB
Como salesianos e salesianas, podemos dizer que “Dom Bosco viveu movido pela virtude da esperança” (Pe. Angel F. Artime, Reitor-mor, no documento preparatório para a Estreia 2021).    

Há quem faça distinção entre ter esperança como uma ação de esperar ou ter expectativa de que algo possa vir a acontecer, e a “esperança” como uma atitude que nasce do verbo “esperançar”, ou seja, uma atitude positiva, afirmativa, diante do que se quer fazer acontecer.

 

Podemos ilustrar tal diferenciação com o que escreve o professor e filósofo Mário Sérgio Cortella: “Não confundamos esperança do verbo esperançar com esperança do verbo esperar. Violência? O que posso fazer? Espero que termine… Desemprego? O que posso fazer? Espero que resolvam… Fome? O que posso fazer? Espero que impeçam… Corrupção? O que posso fazer? Espero que liquidem… Isso não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo”.

 

Num momento histórico como o que vivemos, ainda sob as consequências da pandemia do coronavirus, há os que, presos ao medo e focados nas duras perdas que a Covid-19 tem trazido para toda a sociedade e, em especial, para os que se encontram em situação de maior vulnerabilidade, se sentem abalados em suas crenças e esperanças. Isso é compreensível, pois a natureza humana é frágil.

 

Não é diferente para os que militam no complexo campo da ação social em favor dos menos favorecidos. Um árduo trabalho para amparar, animar e promover pessoas que estão à margem da sociedade, uma atuação em frentes onde se luta com grandes necessidades e enorme escassez de recursos. São contextos onde a resiliência se faz necessária de forma permanente, ou seja, uma capacidade de fazer dar certo situações e pessoas que, em princípio, têm tudo para dar errado. Haja esperança!

 

Fratelli tutti - Todos irmãos

O Papa Francisco, em sua recente Carta Encíclica, Fratelli tutti (Todos irmãos), chama nossa atenção: “Ao engano de que ‘tudo está mal’ corresponde o dito ‘ninguém o pode consertar. Sendo assim, que posso eu fazer?’ Deste modo, alimenta-se o desencanto e a falta de esperança; e isto não estimula um espírito de solidariedade e generosidade” (75). A perspectiva salesiana, contudo, é sempre iluminada pela fé, pela certeza de que trabalhamos para o Reino. Avançamos impulsionados pelo otimismo que conduziu os passos de Dom Bosco, que – por sua vez – se inspirava em São Francisco de Sales. Atuar desse modo é fundamental para combater o pessimismo e fazer brotar a esperança, estabelecer uma aposta concreta e um compromisso verdadeiro na luta pelo bem.

 

Em sintonia com a Igreja, desenvolvemos o nosso doar-se, por meio de diferentes projetos sociais, como um caminho para fazer crescer a esperança. Na mesma Encíclica Fratelli tutti, Papa Francisco nos exorta: “A Igreja é uma casa com as portas abertas, porque é mãe. E como Maria, mãe de Jesus, queremos ser Igreja que serve, que sai de casa, que sai dos seus templos, que sai das suas sacristias, para acompanhar a vida, sustentar a esperança, ser sinal de unidade (...) para lançar pontes, abater muros, semear reconciliação” (276). É nesta perspectiva e com esse compromisso que salesianos e salesianas levam adiante mais de uma centena de obras sociais em todo o Brasil.

 

“Educação à esperança”

O padre Ángel Fernández Artime, sucessor de Dom Bosco, face à grave crise trazida pela Covid-19, nos interpela: “Somos convidados a manter a distância de segurança, mas podemos imaginar que possam respeitar o distanciamento social aqueles que moram amontoados nas favelas, ao lado de canais de dejetos? A perda de trabalho que alcança milhões de famílias; o luto que não se pôde viver deixa na dor milhões de corações; a pobreza que se vislumbra (às vezes a fome) atinge, desorienta, paralisa e ameaça sepultar qualquer esperança”.

 

Partindo dessa constatação, e já olhando para o que nos espera em 2021, ele lança um importante questionamento: “Nem mesmo as guerras mais sangrentas foram ‘globais’ como a situação que estamos vivendo. De qualquer maneira, que resposta podemos dar? Que contribuição podemos oferecer como Família Salesiana? Que valores evangélicos, lidos em perspectiva salesiana, sentimos que podemos oferecer? Como podemos, como educadores, oferecer a alternativa de uma ‘educação à esperança’”?

 

Tendo consciência de que as respostas ao que apresenta padre Ángel não são simples nem fáceis, e, ao mesmo tempo, não tendo dúvida de qual é o nosso compromisso como Família Salesiana, queremos retornar ao Papa Francisco e com ele afirmar: “(...) A esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna. Caminhemos na esperança!” (55).

 

Nossa mensagem, como RSB-Social, não pode ser outra do que um convite para sermos movidos pela esperança. Que com otimismo, determinação e coragem, continuemos JUNTOS, trabalhando para semear a esperança a partir da prática do bem.

 

Padre Agnaldo Soares Lima, SDB, é assessor da Rede Salesiana Brasil de Ação Social (RSB-Social).

 

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Wednesday, 11 November 2020 13:15 Written by  Pe. Agnaldo Soares Lima, SDB
Como salesianos e salesianas, podemos dizer que “Dom Bosco viveu movido pela virtude da esperança” (Pe. Angel F. Artime, Reitor-mor, no documento preparatório para a Estreia 2021).    

Há quem faça distinção entre ter esperança como uma ação de esperar ou ter expectativa de que algo possa vir a acontecer, e a “esperança” como uma atitude que nasce do verbo “esperançar”, ou seja, uma atitude positiva, afirmativa, diante do que se quer fazer acontecer.

 

Podemos ilustrar tal diferenciação com o que escreve o professor e filósofo Mário Sérgio Cortella: “Não confundamos esperança do verbo esperançar com esperança do verbo esperar. Violência? O que posso fazer? Espero que termine… Desemprego? O que posso fazer? Espero que resolvam… Fome? O que posso fazer? Espero que impeçam… Corrupção? O que posso fazer? Espero que liquidem… Isso não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo”.

 

Num momento histórico como o que vivemos, ainda sob as consequências da pandemia do coronavirus, há os que, presos ao medo e focados nas duras perdas que a Covid-19 tem trazido para toda a sociedade e, em especial, para os que se encontram em situação de maior vulnerabilidade, se sentem abalados em suas crenças e esperanças. Isso é compreensível, pois a natureza humana é frágil.

 

Não é diferente para os que militam no complexo campo da ação social em favor dos menos favorecidos. Um árduo trabalho para amparar, animar e promover pessoas que estão à margem da sociedade, uma atuação em frentes onde se luta com grandes necessidades e enorme escassez de recursos. São contextos onde a resiliência se faz necessária de forma permanente, ou seja, uma capacidade de fazer dar certo situações e pessoas que, em princípio, têm tudo para dar errado. Haja esperança!

 

Fratelli tutti - Todos irmãos

O Papa Francisco, em sua recente Carta Encíclica, Fratelli tutti (Todos irmãos), chama nossa atenção: “Ao engano de que ‘tudo está mal’ corresponde o dito ‘ninguém o pode consertar. Sendo assim, que posso eu fazer?’ Deste modo, alimenta-se o desencanto e a falta de esperança; e isto não estimula um espírito de solidariedade e generosidade” (75). A perspectiva salesiana, contudo, é sempre iluminada pela fé, pela certeza de que trabalhamos para o Reino. Avançamos impulsionados pelo otimismo que conduziu os passos de Dom Bosco, que – por sua vez – se inspirava em São Francisco de Sales. Atuar desse modo é fundamental para combater o pessimismo e fazer brotar a esperança, estabelecer uma aposta concreta e um compromisso verdadeiro na luta pelo bem.

 

Em sintonia com a Igreja, desenvolvemos o nosso doar-se, por meio de diferentes projetos sociais, como um caminho para fazer crescer a esperança. Na mesma Encíclica Fratelli tutti, Papa Francisco nos exorta: “A Igreja é uma casa com as portas abertas, porque é mãe. E como Maria, mãe de Jesus, queremos ser Igreja que serve, que sai de casa, que sai dos seus templos, que sai das suas sacristias, para acompanhar a vida, sustentar a esperança, ser sinal de unidade (...) para lançar pontes, abater muros, semear reconciliação” (276). É nesta perspectiva e com esse compromisso que salesianos e salesianas levam adiante mais de uma centena de obras sociais em todo o Brasil.

 

“Educação à esperança”

O padre Ángel Fernández Artime, sucessor de Dom Bosco, face à grave crise trazida pela Covid-19, nos interpela: “Somos convidados a manter a distância de segurança, mas podemos imaginar que possam respeitar o distanciamento social aqueles que moram amontoados nas favelas, ao lado de canais de dejetos? A perda de trabalho que alcança milhões de famílias; o luto que não se pôde viver deixa na dor milhões de corações; a pobreza que se vislumbra (às vezes a fome) atinge, desorienta, paralisa e ameaça sepultar qualquer esperança”.

 

Partindo dessa constatação, e já olhando para o que nos espera em 2021, ele lança um importante questionamento: “Nem mesmo as guerras mais sangrentas foram ‘globais’ como a situação que estamos vivendo. De qualquer maneira, que resposta podemos dar? Que contribuição podemos oferecer como Família Salesiana? Que valores evangélicos, lidos em perspectiva salesiana, sentimos que podemos oferecer? Como podemos, como educadores, oferecer a alternativa de uma ‘educação à esperança’”?

 

Tendo consciência de que as respostas ao que apresenta padre Ángel não são simples nem fáceis, e, ao mesmo tempo, não tendo dúvida de qual é o nosso compromisso como Família Salesiana, queremos retornar ao Papa Francisco e com ele afirmar: “(...) A esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna. Caminhemos na esperança!” (55).

 

Nossa mensagem, como RSB-Social, não pode ser outra do que um convite para sermos movidos pela esperança. Que com otimismo, determinação e coragem, continuemos JUNTOS, trabalhando para semear a esperança a partir da prática do bem.

 

Padre Agnaldo Soares Lima, SDB, é assessor da Rede Salesiana Brasil de Ação Social (RSB-Social).

 

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