Manda quem pode e obedece quem precisa!? Autoridade e autoritarismo

Segunda, 25 Junho 2018 15:38 Escrito por  Pe. Marcos Sandrini, SDB
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A palavra autoridade vem do latim auctus, particípio passado de augere, isto é, aumentar, fazer crescer, acrescentar. É importante a etimologia (origem) das palavras porque elas nos ajudam a trazer a questão para o seu justo termo. Toda autoridade acrescenta algo às pessoas com quem se relaciona.  

Vivemos em instituições que têm uma determinada organização e, necessariamente, pessoas que exercem algum tipo de autoridade sobre as outras. O excesso de autoridade é o autoritarismo, quando quem manda o faz sem apontar razões para a obediência. A falta de autoridade revela um absenteísmo da pessoa. Este absenteísmo pode ser de dois tipos. O primeiro, a ausência e a omissão de quem deveria exercer a autoridade e não o faz. O segundo é a pessoa que deveria exercer autoridade e não o faz por incompetência ou por falta de bom senso para exercê-la. O importante, porém, é que quem manda exerça sua autoridade sem imposição e quem obedece exerça sua liberdade sem subordinação, submissão ou subserviência.

 

Quem obedece nunca erra. Será?

É bom se convencer que é difícil mandar e é difícil obedecer, a não ser que tudo seja feito com a máxima racionalidade e amorabilidade.

Estive num supermercado e, de repente, me chamou a atenção o procedimento de uma mãe com seu filho pequeno de cerca de cinco anos. O menino colocou determinado produto no carrinho. Quando a mãe viu, chamou o filho e começou a dialogar com ele. A conversa foi nestes termos. “A mãe tem uma lista de produtos para comprar. Fizemos juntos em casa. Se nós levarmos este produto que você colocou no carrinho vamos ter que deixar fora algum outro produto da lista”. A conversa foi tão tranquila que o menino colocou o produto novamente na prateleira. A conclusão a que cheguei foi que o diálogo é uma presença viva nesta família. Uma criança pequena também tem condições de entender certas coisas através do raciocínio.

Quem obedece nunca erra, desde que quem manda tenha juízo, bom senso e capacidade de diálogo.

 

Obedecer a quem merece

Diante de alguém que se respeita, além da estima nasce fácil e espontaneamente também a obediência, porque é um grande prazer obedecer a quem merece. A alma busca essa obediência, tem fome e sede dela, como o corpo tem fome e sede de alimentos e de bebida. Pelo contrário, deseja encontrar algo por que viver, a estrela em torno da qual gravitar, a paixão fundamental da vida.

A liberdade não quer ser perenemente livre no sentido de desatada, desprendida, solta, mas quer, pelo contrário, doar-se, comprometer-se seriamente, apaixonar-se e, portanto, ligar-se. Poder-se-ia dizer consagrar-se, no sentido de quem encontrou algo ao qual entregar feliz o seu total respeito e que, portanto, experimenta como sagrado.

Há coisas que se impõem por si, arrebatam, é um processo natural. Por isso a verdade, a beleza e a bondade não precisam mandar nada, porque atraem, cativam, atam, pelo simples fato de ser. Por isso, no Sistema Preventivo de Dom Bosco é muito forte a criação do ambiente educativo. Ambiente não são as paredes, os espaços... Ambiente é o calor humano, a ternura, a razoabilidade, o consenso, o convencimento, a religiosidade. Tais são os pais, os professores, os colegas, as pessoas significativas, as autoridades... Obedecer neste contexto acrescenta (augere).

“Vocês devem ser como um pai entre seus filhos”, dizia Dom Bosco. Numa carta escreveu que ser “superior” significa ser “educador”, isto é, ser “pai, irmão e amigo” para os jovens. “Cada jovem que chega a uma de nossas casas deve considerar seus colegas como irmãos e seus educadores como quem ocupa o lugar de seus pais”. Sua serenidade imperturbável, sua amistosa cordialidade, sua compreensão de um coração jovem e sua percepção instintiva das necessidades particulares lhe permitiam falar de uma maneira que chegava diretamente ao coração. A maneira como tratava cada pessoa mostrava uma sensibilidade e uma preocupação incríveis e era uma prova instantânea de amor e respeito.

 

O novo em gestação nos subterrâneos do mundo

O que acontece é que, hoje, estamos realmente com crise de autoridade mais que crise de obediência. Um mínimo de dignidade de quem exerce cargos públicos seria lógico e normal. No entanto, a corrupção e a apropriação do patrimônio público e privado andam soltas. Neste sentido se pergunta: quem está em crise, a autoridade ou os cidadãos comuns? O povo tem o governo que merece, se diz. No entanto, com um povo analfabeto, sobrevivente, com direitos cortados, como se pode exigir que tenha discernimento? Ainda mais com a avalanche milionária de publicidade falseando a realidade! O eleitor não é mais um cidadão a ser convencido, mas um espectador a ser seduzido...

Dentro deste contexto os adolescentes e jovens também são massa de manobra. No entanto, nos subterrâneos do mundo, estão sendo gestados projetos diferentes de exercício da autoridade em todos os âmbitos: familiar, social, político, econômico, religioso, cultural. Dom Bosco tinha um posicionamento claro diante das autoridades. Mais vale uma obediência crítica e esclarecida do que uma obediência subserviente. Quando faço o batizado de uma criança sempre agradeço aos pais por terem colocado um filho ou filha no mundo. Isto é sinal de que ainda têm esperança no futuro. É possível, sim, um mundo mais humano e mais decente para as novas gerações. Neste sentido é importante dizer que o maior problema do mundo não são as novas gerações, mas as velhas gerações que custam a aprender respeito e dignidade. Quem quiser respeito que se faça respeitar.

 

O cliente nem sempre tem razão

Existe um princípio de qualidade total que diz que “o cliente sempre tem razão”. Isto pode ser verdadeiro nas transações comerciais. Em educação, não. De fato, a educação sempre pressupõe a interferência de pessoas significativas que chamamos de educadores e do ambiente do entorno em que vivem.

Costuma-se fazer uma distinção entre temperamento e caráter. Por temperamento entende-se uma disposição inata e particular de cada pessoa, pronta a reagir aos estímulos ambientais; é a maneira interna de ser e agir de uma pessoa. Já o caráter é formado durante as etapas do desenvolvimento psicoafetivo, pelas quais passa a criança desde a gestação. Para a sua formação, incluem tanto os elementos geneticamente herdados (temperamento) como também os adquiridos do meio ambiente no qual a criança está inserida.

A educação visa formar o caráter da pessoa tendo como ponto de partida o seu temperamento. Neste sentido é que se diz que o educando nem sempre tem razão porque precisa ser ajudado a formar seu caráter a partir do seu temperamento e das influências do ambiente.

Padre Pietro Broccardo, grande estudioso de Dom Bosco, escreveu um livro intitulado Dom Bosco: profundamente homem, profundamente santo. Falando de seu temperamento ele diz que “Dom Bosco não era, por natureza, o homem paciente, manso e amável que conhecemos”. Afirma ainda que ele tinha “inclinação à ira e à impetuosidade, com tendência à autonomia, à demasiada estima de si, à afirmação obstinada das próprias convicções, à impetuosa irascibilidade”. Estas eram algumas das qualidades do seu temperamento. No entanto, através dos processos educativos de sua mãe, da catequese paroquial, no seminário, no Colégio Eclesiástico, na vida, ele foi canalizando isto que poderia ser um estorvo em seu ministério educativo e pastoral numa riqueza incomum. Daí brotaram seu espírito empreendedor, sua proatividade, as convicções entusiásticas. Isto é caráter.

Uma criança, um adolescente ou um jovem precisa de quem saiba apostar no temperamento das pessoas para a construção de seu caráter. Gosto muito de trabalhar com duas palavras: fixação e flutuação. As novas gerações gostam de flutuação. As pessoas mais institucionalizadas gostam mais de fixação. A coordenação desses dois elementos é fundamental para formar o caráter das pessoas. A flutuação é importante porque relativiza o que não é fundamental. A fixação é importante porque torna fundamental o que se quer relativizar. A vida cobra. Então, o educador disciplina as novas gerações coordenando fixação e flutuação numa medida bem adequada.

 

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Segunda, 25 Junho 2018 15:38 Escrito por  Pe. Marcos Sandrini, SDB
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A palavra autoridade vem do latim auctus, particípio passado de augere, isto é, aumentar, fazer crescer, acrescentar. É importante a etimologia (origem) das palavras porque elas nos ajudam a trazer a questão para o seu justo termo. Toda autoridade acrescenta algo às pessoas com quem se relaciona.  

Vivemos em instituições que têm uma determinada organização e, necessariamente, pessoas que exercem algum tipo de autoridade sobre as outras. O excesso de autoridade é o autoritarismo, quando quem manda o faz sem apontar razões para a obediência. A falta de autoridade revela um absenteísmo da pessoa. Este absenteísmo pode ser de dois tipos. O primeiro, a ausência e a omissão de quem deveria exercer a autoridade e não o faz. O segundo é a pessoa que deveria exercer autoridade e não o faz por incompetência ou por falta de bom senso para exercê-la. O importante, porém, é que quem manda exerça sua autoridade sem imposição e quem obedece exerça sua liberdade sem subordinação, submissão ou subserviência.

 

Quem obedece nunca erra. Será?

É bom se convencer que é difícil mandar e é difícil obedecer, a não ser que tudo seja feito com a máxima racionalidade e amorabilidade.

Estive num supermercado e, de repente, me chamou a atenção o procedimento de uma mãe com seu filho pequeno de cerca de cinco anos. O menino colocou determinado produto no carrinho. Quando a mãe viu, chamou o filho e começou a dialogar com ele. A conversa foi nestes termos. “A mãe tem uma lista de produtos para comprar. Fizemos juntos em casa. Se nós levarmos este produto que você colocou no carrinho vamos ter que deixar fora algum outro produto da lista”. A conversa foi tão tranquila que o menino colocou o produto novamente na prateleira. A conclusão a que cheguei foi que o diálogo é uma presença viva nesta família. Uma criança pequena também tem condições de entender certas coisas através do raciocínio.

Quem obedece nunca erra, desde que quem manda tenha juízo, bom senso e capacidade de diálogo.

 

Obedecer a quem merece

Diante de alguém que se respeita, além da estima nasce fácil e espontaneamente também a obediência, porque é um grande prazer obedecer a quem merece. A alma busca essa obediência, tem fome e sede dela, como o corpo tem fome e sede de alimentos e de bebida. Pelo contrário, deseja encontrar algo por que viver, a estrela em torno da qual gravitar, a paixão fundamental da vida.

A liberdade não quer ser perenemente livre no sentido de desatada, desprendida, solta, mas quer, pelo contrário, doar-se, comprometer-se seriamente, apaixonar-se e, portanto, ligar-se. Poder-se-ia dizer consagrar-se, no sentido de quem encontrou algo ao qual entregar feliz o seu total respeito e que, portanto, experimenta como sagrado.

Há coisas que se impõem por si, arrebatam, é um processo natural. Por isso a verdade, a beleza e a bondade não precisam mandar nada, porque atraem, cativam, atam, pelo simples fato de ser. Por isso, no Sistema Preventivo de Dom Bosco é muito forte a criação do ambiente educativo. Ambiente não são as paredes, os espaços... Ambiente é o calor humano, a ternura, a razoabilidade, o consenso, o convencimento, a religiosidade. Tais são os pais, os professores, os colegas, as pessoas significativas, as autoridades... Obedecer neste contexto acrescenta (augere).

“Vocês devem ser como um pai entre seus filhos”, dizia Dom Bosco. Numa carta escreveu que ser “superior” significa ser “educador”, isto é, ser “pai, irmão e amigo” para os jovens. “Cada jovem que chega a uma de nossas casas deve considerar seus colegas como irmãos e seus educadores como quem ocupa o lugar de seus pais”. Sua serenidade imperturbável, sua amistosa cordialidade, sua compreensão de um coração jovem e sua percepção instintiva das necessidades particulares lhe permitiam falar de uma maneira que chegava diretamente ao coração. A maneira como tratava cada pessoa mostrava uma sensibilidade e uma preocupação incríveis e era uma prova instantânea de amor e respeito.

 

O novo em gestação nos subterrâneos do mundo

O que acontece é que, hoje, estamos realmente com crise de autoridade mais que crise de obediência. Um mínimo de dignidade de quem exerce cargos públicos seria lógico e normal. No entanto, a corrupção e a apropriação do patrimônio público e privado andam soltas. Neste sentido se pergunta: quem está em crise, a autoridade ou os cidadãos comuns? O povo tem o governo que merece, se diz. No entanto, com um povo analfabeto, sobrevivente, com direitos cortados, como se pode exigir que tenha discernimento? Ainda mais com a avalanche milionária de publicidade falseando a realidade! O eleitor não é mais um cidadão a ser convencido, mas um espectador a ser seduzido...

Dentro deste contexto os adolescentes e jovens também são massa de manobra. No entanto, nos subterrâneos do mundo, estão sendo gestados projetos diferentes de exercício da autoridade em todos os âmbitos: familiar, social, político, econômico, religioso, cultural. Dom Bosco tinha um posicionamento claro diante das autoridades. Mais vale uma obediência crítica e esclarecida do que uma obediência subserviente. Quando faço o batizado de uma criança sempre agradeço aos pais por terem colocado um filho ou filha no mundo. Isto é sinal de que ainda têm esperança no futuro. É possível, sim, um mundo mais humano e mais decente para as novas gerações. Neste sentido é importante dizer que o maior problema do mundo não são as novas gerações, mas as velhas gerações que custam a aprender respeito e dignidade. Quem quiser respeito que se faça respeitar.

 

O cliente nem sempre tem razão

Existe um princípio de qualidade total que diz que “o cliente sempre tem razão”. Isto pode ser verdadeiro nas transações comerciais. Em educação, não. De fato, a educação sempre pressupõe a interferência de pessoas significativas que chamamos de educadores e do ambiente do entorno em que vivem.

Costuma-se fazer uma distinção entre temperamento e caráter. Por temperamento entende-se uma disposição inata e particular de cada pessoa, pronta a reagir aos estímulos ambientais; é a maneira interna de ser e agir de uma pessoa. Já o caráter é formado durante as etapas do desenvolvimento psicoafetivo, pelas quais passa a criança desde a gestação. Para a sua formação, incluem tanto os elementos geneticamente herdados (temperamento) como também os adquiridos do meio ambiente no qual a criança está inserida.

A educação visa formar o caráter da pessoa tendo como ponto de partida o seu temperamento. Neste sentido é que se diz que o educando nem sempre tem razão porque precisa ser ajudado a formar seu caráter a partir do seu temperamento e das influências do ambiente.

Padre Pietro Broccardo, grande estudioso de Dom Bosco, escreveu um livro intitulado Dom Bosco: profundamente homem, profundamente santo. Falando de seu temperamento ele diz que “Dom Bosco não era, por natureza, o homem paciente, manso e amável que conhecemos”. Afirma ainda que ele tinha “inclinação à ira e à impetuosidade, com tendência à autonomia, à demasiada estima de si, à afirmação obstinada das próprias convicções, à impetuosa irascibilidade”. Estas eram algumas das qualidades do seu temperamento. No entanto, através dos processos educativos de sua mãe, da catequese paroquial, no seminário, no Colégio Eclesiástico, na vida, ele foi canalizando isto que poderia ser um estorvo em seu ministério educativo e pastoral numa riqueza incomum. Daí brotaram seu espírito empreendedor, sua proatividade, as convicções entusiásticas. Isto é caráter.

Uma criança, um adolescente ou um jovem precisa de quem saiba apostar no temperamento das pessoas para a construção de seu caráter. Gosto muito de trabalhar com duas palavras: fixação e flutuação. As novas gerações gostam de flutuação. As pessoas mais institucionalizadas gostam mais de fixação. A coordenação desses dois elementos é fundamental para formar o caráter das pessoas. A flutuação é importante porque relativiza o que não é fundamental. A fixação é importante porque torna fundamental o que se quer relativizar. A vida cobra. Então, o educador disciplina as novas gerações coordenando fixação e flutuação numa medida bem adequada.

 

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