Sexta, 08 Junho 2018 17:54

Traços da devoção ao Sagrado Coração na espiritualidade salesiana Destaque

Escrito por  Pe. José Ivanildo de O. Melo, SDB
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Traços da devoção ao Sagrado Coração na espiritualidade salesiana Reprodução: ISMA

Nesta breve reflexão não pretendemos apresentar o desenvolvimento do culto histórico ao Sagrado Coração de Jesus, mesmo porque os enfoques feitos ao longo do tempo, especialmente nos últimos cinco séculos, após as visões de Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), geralmente polarizaram-se em torno de uma piedade popular romântica ou da tentativa exacerbada de racionalização de tais práticas. Aqui nos concentraremos em indicar traços dessa devoção presentes na espiritualidade salesiana.

 

O sistema educativo-evangelizador de Dom Bosco, expresso no lema “Educação é coisa do coração”, é uma equilibrada síntese entre razão e emoção, “órgãos” indispensáveis para a vivência de uma fé amadurecida e educação integral da pessoa. Esta proposta, fundada nas Sagradas Escrituras, na Tradição da Igreja e no seu Magistério, nos garantem os critérios permanentes de interpretação e proveito das “revelações particulares” (cf. CIgC. 67).

 

Por este motivo, o culto ao Sagrado Coração de Jesus tornou-se naturalmente um dos pilares da espiritualidade Salesiana. Dão testemunho disso os escritos de Dom Bosco, suas conferências e, sobretudo, a quantidade de templos, obras e casas dedicadas a Ele durante as primeiras décadas da Congregação. O artigo 11 das Constituições da Sociedade de São Francisco de Sales sintetizou de forma magistral essa experiência ao afirmar: “O espírito salesiano encontra seu modelo e fonte no próprio coração de Cristo, apóstolo do Pai” (C. 11).

 

Mas os filhos de Dom Bosco não somente construíram prédios em honra do Coração de Jesus, ou escreveram um documento com esse aceno, eles ergueram um verdadeiro “edifício espiritual” em seu louvor (cf. 1Pd 2, 5). Destaque possui nesta empreitada o bem-aventurado André Beltrami, que não via as horas passarem nem era capaz de se distrair em suas meditações matinais quando mirava os olhos no Coração de Cristo, que lhe parecia vir ao seu encontro.

 

O Beato Miguel Rua, primeiro sucessor de Dom Bosco, respondendo ao apelo de vários irmãos e valendo-se do convite do Papa Leão XIII, convocou, com carta circular do ano de 1900, os salesianos do mundo inteiro a consagrarem-se ao Sagrado Coração. A fim de que este ato tivesse um valor espiritual duradouro propôs cinco práticas a serem vivenciadas como ato de amor reparador: Os Nove Ofícios; a Guarda de Honra; a Comunhão Reparadora, a Hora Santa e a devoção das primeiras sextas-feiras do mês. Estas práticas foram vividas e promovidas no ambiente salesiano por décadas.

 

O processo de mudança de mentalidades que marcaram o homem dos séculos XIX a XXI fizeram com que essas imagens e linguagens de algumas dessas devoções se tornassem obsoletas, caindo em progressivo desuso por falta de atualização. O movimento do Apostolado da Oração (1844), criado e propagado por padres Jesuítas, garantiu na Igreja a continuidade do culto, que infelizmente, por desconhecimento de uns e má vontade de outros, tornou-se tantas vezes alvo de preconceitos, como se fosse coisa unicamente de senhoras idosas.

 

Para os salesianos não deveria ser assim, pois aprendemos de Dom Bosco que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a prática sacramental eucarística constituem uma forte unidade espiritual, decorrendo uma da outra. Foi exatamente isso que ele disse ao Beato Augusto Czartoryski quando perguntado qual era a melhor devoção: “A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, palpitante de amor na Santíssima Eucaristia”. A Eucaristia é o coração vivo e palpitante de Jesus, amá-lo e adorá-lo nosso culto de amor.

 

Seguindo a corrente espiritual de seu tempo, Dom Bosco fez com que o seu sistema educativo tendesse para a devoção ao Sagrado Coração, porém compreendida como realidade hipostasiada de Cristo Jesus. Assim a verdadeira devoção fica protegida do perigo do romantismo espiritual ao mesmo tempo que não se limita ao conhecimento intelectual. O coração torna-se imagem afetiva do Deus amor, mas é ao mesmo tempo carne do Deus feito homem, ferido, traspassado, dado em alimento. Ou seja, no Coração de Cristo temos o resumo do mistério de Deus e a síntese desse mistério na Pessoa de Jesus, o Verbo encarnado (cf. Hauriets Aquas, n 42).

 

Nisto Dom Bosco estava também sintonizado com a rica tradição dos padres da Igreja que interpretaram a fonte de sangue e água, jorrados do peito aberto do divino mestre na cruz (cf. Jo 19, 34), como imagem da infusão do Espírito Santo, nos oferecendo os dois principais sacramentos da iniciação cristã: o Batismo (água) e a Eucaristia (sangue) – a água que purifica e o sangue que alimenta.

 

Neste dia solene ouçamos, para além de nossas resistências, a voz de Cristo – Vinde a Mim… de Mim aprendei… Eu que sou manso e humilde de Coração (Mt 11, 28-30). Este é o caminho do discípulo missionário, itinerário irrenunciável de quem deseja “conquistar os corações mais endurecidos” (10º promessa do S.C.J), quem deseja fazer da sua vida fonte onde a humanidade, sedenta de vida plena, de vida em abundância, venha pedir de beber (cf. Jo 4, 14); (Cf. Estréia 2018).

 

Concluamos rezando com as palavras do bem-aventurado André Beltrami, outro apaixonado pelo Coração de Cristo – “Queiram o nosso doce Redentor e sua Mãe Maria Santíssima considerar sempre a Sociedade Salesiana como filha predileta e embelezá-la […] E, se minha voz não é muito ousada, faço votos que a Sociedade Salesiana seja solenemente consagrada a esse Coração adorável, do qual tirará novas graças de vida eterna” (Desramaut, 2010, p. 226).

Lido 724 vezes Modificado em Sexta, 08 Junho 2018 18:31

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