Sexta, 19 Janeiro 2018 13:39

Laura Vicuña e a violência intrafamiliar

Escrito por  Ir. Luzinete Rego Freitas, FMA
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Laura Vicuña é invocada como padroeira das vítimas de maus tratos e de violência doméstica Laura Vicuña é invocada como padroeira das vítimas de maus tratos e de violência doméstica Imagem: Arquivo Casa Geral Salesiana

Laura Vicuña, celebrada em 22 de janeiro, é padroeira das vítimas de maus tratos e de violência doméstica. Para compreender o por quê, é necessário adentrar mais acuradamente em sua história pessoal e perceber, na trajetória de uma vida, eminentemente, curta, sua fortaleza e resistência diante da violência doméstica.

 

O tema da Campanha da Fraternidade proposto para 2018, pelaConferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)– “Fraternidade e superação da violência”, tendo como lema a citação de Mateus 23,8 “Em Cristo somos todos irmãos” –, nos remete enquanto Família Salesiana (FS) à história de vida da Beata Laura Vicuña, ex-aluna das Filhas de Maria Auxiliadora da Argentina. Em tenra idade, ela não somente conviveu com a violência doméstica, mas foi vítima dela, sofrendo a terrível violência do assédio sexual por parte do seu padrasto. Diante da complexidade que este tema apresenta, sentimo-nos impelidos a refletir, com frequência, as diversas formas de violência que assolam nossas famílias e a sociedade em geral.

Embora em suas biografias Laura Vicuña seja tão somente apresentada como a filha que ofereceu a própria vida para salvar a mãe, sendo reconhecida, por muitos anos, pela imagem de uma menina serena e meiga, fortemente caracterizada por traços europeus, aparentemente uma jovem frágil, engana-se quem pensa assim! É necessário adentrar mais acuradamente em sua história pessoal e perceber, na trajetória de uma vida, eminentemente, curta, sua fortaleza e resistência diante da violência doméstica.

 

Biografia de uma jovem latino-americana

Laura Carmen Vicuña, filha do soldado José Domingos Vicuña e de Mercedes Pino, nasceu em Santiago do Chile, no dia 5 de abril de 1891, em um cenário de guerra civil. Três anos mais tarde, em 1894, ganhou uma irmã de nome Júlia Amanda. Pouco tempo depois, o pai faleceu e a mãe ficou sem recursos, praticamente na miséria. Por isso, Mercedes mudou-se para a Argentina, perto de Neuquén, com as duas filhas, a fim de esconderem-se durante certo tempo, até que os conflitos no Chile terminassem.

Mercedes, tendo que assumir toda a responsabilidade da casa sozinha, logo procurou trabalho para o sustento da família e para poder pagar os estudos das filhas. Na busca de trabalho, chegou à estância de Quilquihué, que pertencia ao prepotente senhor Manuel Mora. Percebendo sua fragilidade em muitas vertentes, aproveitou da situação para logo assediá-la com proposta indecente: Mercedes se tornaria sua amante e, em troca, ele a abrigaria com suas filhas na estância e pagaria o estudo das meninas. Sem vislumbrar outra alternativa, Mercedes aceitou as condições impostas.

Foi assim que Laura teve acesso ao Colégio das Filhas de Maria Auxiliadora, recebendo uma educação de qualidade que lhe possibilitou educar-se de forma integral. Muito sensível à dimensão religiosa, no dia 2 de junho de 1901 fez sua primeira comunhão, demonstrando forte disposição de vencer o pecado ao ponto de preferir entregar a vida para não pecar. Com profunda lucidez dos princípios morais da época, a situação de vida de sua mãe a fazia sofrer muito, levando-a a atitudes concretas de enfrentamento da violência a que era submetida.

Neste contexto de horror ao pecado, e com clara consciência de que a violência e o abuso sexuais sofridos por sua mãe eram contrários à ética e ao respeito à sua dignidade de pessoa e de mulher, Laura, apenas uma adolescente, teve coragem suficiente de ir à luta e combater, de forma pacífica, a exploração sexual, uma das tantas formas de violência contra a mulher, que perduram até aos dias do século XXI, não hesitando a oferecer sua própria vida em favor da libertação de sua mãe.

 

CF 2018: superação da violência

A figura dessa beata adolescente, falecida aos 13 anos de idade na noite de 22 de janeiro de 1904, está em perfeita consonância com a Campanha da Fraternidade 2018 e o tema “superação da violência”, no sentido de combater, corajosamente, este contra-valor intrafamiliar, inclusive, recusando-se aos ataques de assédio do padrasto, não com a violência, mas pela intercessão divina, orações contínuas a Deus, pedindo por sua fortaleza e pela conversão da mãe, optando por estratégias contrárias à violência. Neste sentido, suas escolhas não poderiam ser outras que o caminho da fraternidade que gera e promove a cultura da paz, da reconciliação e da justiça.

Laura Vicuña foi beatificada pelo Papa João Paulo II no dia 3 de setembro de 1988, sendo invocada como padroeira das pessoas que são vítimas de maus tratos e de violência doméstica. Seus restos mortais encontram-se na Capela das Filhas de Maria Auxiliadora em Bahia Blanca, na Argentina.

Que Laura Vicuña interceda à Trindade Santa para que não falte o empenho necessário de todos, governantes, Igreja e sociedade civil, na busca incessante do combate à violência que mata, indiscriminadamente e com tamanha frieza, fazendo sofrer tanta gente inocente.

 

Violência doméstica é problema grave no Brasil

Os dados sobre a violência doméstica no Brasil são alarmantes: mais de 40% das mulheres já sofreram violência doméstica em algum momento da vida e, a cada hora, 503 mulheres são vítimas de violência física na rua, no trabalho, na escola e, especialmente, em casa.

Os dados são resultados de pesquisa feita pelo Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança sobre os diversos tipos de violência a que estão expostas as mulheres: ofensa verbal, ameaça de violência física, ofensa sexual, ameaça com faca ou arma de fogo, espancamento e tentativa de homicídio. Foi constatado que o agressor, em 61% dos casos, é uma pessoa que faz parte do convívio cotidiano da mulher e, em 43% dos casos mais graves, a agressão ocorre dentro da casa da vítima. A mesma pesquisa aponta outro percentual preocupante: em 2016, mais de metade das vítimas (52%) ficou calada diante da agressão. Não denunciou à delegacia da mulher ou outros órgãos competentes, não procurou ONGs ou entidades de apoio, sequer procurou o auxílio da família.

Entre as mulheres vítimas de violência no Brasil, a maioria é composta por adolescentes e jovens de 16 a 24 anos. Em relação à violência doméstica em geral, as principais vítimas também são as mais jovens e indefesas: a Secretaria Nacional de Direitos Humanos estima que 76.000 crianças e adolescentes tenham sofrido algum tipo de violência física, psicológica ou negligência em 2016.

A violência intrafamiliar é um dos focos de atuação da Família Salesiana, com ações que vão desde atividades de conscientização sobre o problema até o acolhimento de crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica. As diversas obras salesianas voltadas para crianças e adolescentes em situação de risco social e suas famílias também contribuem para combater esse grave problema social. 

Lido 1740 vezes Modificado em Quinta, 08 Fevereiro 2018 01:20

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