Sexta, 24 Julho 2015 01:47

A semente produziu bons frutos

Escrito por  Dom Walter Ivan Azevedo, SDB
Classifique este artigo
(0 votos)

Um francês que visitou o Alto Rio Negro nos fins do século XIX escreveu: “É uma região desabitada e inabitável”.

Não foi esse o parecer do padre João Bálzola, o primeiro salesiano que percorreu a remo a região e fundou nela, em 24 de maio de 1915, a missão de São Gabriel da Cachoeira, inaugurando assim a presença salesiana na Amazônia. Deixou escrito: “É um vasto campo de apostolado. As dificuldades não impedirão a realização de uma grande obra de civilização cristã”.

Após a morte do primeiro prelado do alto rio Negro, monsenhor Lourenço Giordano, o bispo seu sucessor, dom Pedro Massa, que governou a prelazia, mais tarde diocese do rio Negro, de 1923 a 1968, percebeu que toda obra apostólica e humanitária na região devia apoiar-se em três centros: a igreja, o hospital e a escola. A igreja, pois estávamos lá para evangelizar. O hospital, porque as frequentes epidemias dizimavam a população indígena e ribeirinha na época. As irmãs salesianas, chegadas em 1923, cuidaram durante decênios dos hospitais construídos em cada centro missionário. A escola, porque os índios e os caboclos ribeirinhos, uma vez instruídos, deixaram de ser explorados como antes pelo homem branco invasor.

Bem cedo, e notadamente a partir das décadas de 1980 e 1990, a diocese e os salesianos adotaram como programa de ação “formar o indígena para que trate com o homem branco de igual para igual e seja o autor do próprio progresso tanto material, como intelectual e espiritual”.

Hoje o Alto Rio Negro é uma das regiões indígenas mais escolarizadas da Amazônia; os próprios índios e índias são os professores dos colégios das missões, inclusive ocupando alguns o cargo de diretor ou diretora. Quanto ao progresso espiritual, não só a vida cristã de cada aldeia é assegurada desde longa data pela presença de catequistas locais, mas os primeiros padres indígenas, tanto diocesanos como salesianos, já estão evangelizando na sua área nativa e novos seminaristas surgem a cada ano.

Isso prova que Deus chama em toda a parte seus colaboradores, também na floresta tropical, de qualquer etnia ou condição social.

O suor e o sacrifício dos pioneiros não foram em vão.

Escrevi um dia no livro Pinceladas de luz na floresta amazônica (Edições Paulinas) que “a natureza da Amazônia nos enche de admiração e nos causa vivo prazer estético ao contemplá-la. O poeta o sente, mas detém-se no prazer.

O biólogo vai mais além: descobre a imensa riqueza natural do ambiente ecológico e se esforça por conservar e desvendar ao mundo os tesouros da biodiversidade.

O etnólogo dá também mais um passo: busca os povos da Amazônia no afã louvável de abrir-se às suas culturas e penetrar seus segredos. Há os que nutrem verdadeiro interesse pela defesa e preservação dos povos por eles estudados. Outros, porém, uma vez recolhidos os dados e apresentados em uma tese de láurea... ‘adeus, índios! Para que os quero ver ainda?’

O missionário é o único que vem para ficar. Nos centros de Missão do rio Negro, o túmulo do missionário alveja ao lado do dos indígenas. Nem depois da morte os abandona. Pois ele os busca não com a curiosidade do turista, nem como simples objeto de estudo, mas como a um irmão muito amado, ao qual vem oferecer respeito e defesa e a parceria na salvação que Cristo veio trazer para todos.”

 

Dom Walter Ivan Azevedo é bispo emérito do Alto Rio Negro, atualmente colabora na formação na etapa do pós-noviciado no Centro Salesiano de Formação (CESAF) em Manaus, AM.

Lido 893 vezes

Deixe um comentário