Segunda, 09 Julho 2018 14:41

“Não te esqueças de rezar por nós”, disseram-me na Síria

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O Reitor-mor, padre Ángel Fernández Artime, em Damasco, Síria O Reitor-mor, padre Ángel Fernández Artime, em Damasco, Síria Foto: ANS

De uma experiência inesquecível nasce uma mensagem de amor e de reconhecimento que voa até Damasco e até Alepo, afirma o Reitor-mor dos Salesianos em sua mensagem para os leitores do Boletim Salesiano em julho.

 

Em Damasco, uma das cidades martirizadas da Síria, deram-me um presente simples e simpático, depois de eu ter largado uma pomba branca que voava nos ares, numa tarde de festa no oratório. Naquele momento um aterrador tiro de morteiro tinha feito um grande estrondo e havia devastado a praça em que na tarde do dia anterior tínhamos feito festa juntos, salesianos e jovens animadores.

 

Sentíamo-nos todos felizes porque a paz parecia próxima. Serpenteavam ainda interesses malvados nos homens “da sombra”, gente tão diferente daquelas pessoas boas e leais que estavam comigo.

 

Tínhamos sido recebidos no dia anterior para uma grande festa. Aguardávamos há meses que fosse possível visitá-los. E finalmente tínhamos chegado. Havia sido uma longa viagem, mas agora estávamos em Damasco. A primeira e significativa etapa da nossa peregrinação. Sentia-se uma alegria verdadeira e exuberante em todos os cantos do oratório salesiano de Damasco. Mais de quinhentos rapazes, moças e jovens que gritavam exultantes naquela tarde de festa. Entre estes, um grupo de 150 animadores, jovens estudantes universitários que são a vida e a alma naquele oratório que reúne mais de mil adolescentes e jovens dos lugares mais distantes da capital. O mesmo acontece em Alepo (com a diferença que a cidade de Alepo está quase totalmente destruída: 72% das habitações são só destroços).

 

O presente, que me foi entregue no fim da Eucaristia em Damasco, era uma bela “estola”. Tinham-na oferecido exprimindo o desejo de que a usasse quando celebrasse a Eucaristia em toda a parte do mundo. Na estola estava bordado, em árabe, “Não te esqueças de rezar por nós”.

 

Aquele presente e aquela frase tocaram-me o coração. A ponto de, desde então, ter usado aquela estola em todas as missas dos lugares onde tenho estado: em Tijuana no México; Chaco Paraguaio, Uruguai e Rjeka, na Croácia.

 

E em toda parte conto sobre esse encontro, esse presente e o pedido que me fizeram. E ao mesmo tempo tenho testemunhado aquilo que descobri naqueles Salesianos e naquelas Irmãs Filhas de Maria Auxiliadora com quem compartilhei aqueles dias, e o que notei naqueles jovens animadores serenos e encantadores, e em tantas famílias atingidas pela dor e pelas perdas, mas cheias de força e de esperança.

 

Olhos cheios de orgulho

Eis o que vi:

1. Vi a DIGNIDADE. A dignidade dos pobres, a dignidade daqueles que se sentem submersos em uma situação que eles não criaram, da qual não escolheram participar, mas na qual se sentem mergulhados, totalmente precipitados sem poder escolher mais nada, sem poder refazer-se até que outros decidam que tudo terminou. Mas no olhar de todos brilhavam orgulho e compostura, e o seu olhar firme e corajoso dizia mais do que as palavras.

2. Vi BELÍSSIMOS E AFETUOSOS SORRISOS. Os sorrisos fortes e intensos daqueles jovens animadores que querem que as crianças do Oratório tenham um pequeno oásis nas horas do dia em que podem esquecer o medo da guerra, dos morteiros, da destruição. Fizeram-me pensar outra vez no filme A vida é bela de Benigni, em que um pai faz com que seu filho, que está internado em um campo de extermínio nazista com ele e a mãe, acredite participar de um jogo, de uma brincadeira.

Os nossos irmãos salesianos, as irmãs e os jovens animadores fazem todo o possível para que a guerra e a destruição não tenham a última palavra. Não é uma aventura divertida como no filme. Mas notei que não querem permitir que as bombas e a destruição sejam o que marcará a sua vida para sempre.

3. Vi muita ESPERANÇA. Esta é a palavra exata e o sentimento que suscitavam em mim quando me diziam: “Padre Ángel, não temos medo, porque estamos cheios de fé e de esperança. A última palavra não será a guerra, nem a destruição, mas a vida, as nossas vidas, a fé que temos e o desejo de viver e de fazer desta nossa terra um país belíssimo”. E os que assim falavam eram jovens que, em muitos casos, tinham perdido a casa, o pai ou um irmão mortos por um projétil disparado ao acaso.

4. E descobri que o sentido de COMUNHÃO E FRATERNIDADE era muito profundo neles e em mim. Posso assegurar a vocês que me senti unido de todo o coração àqueles meus irmãos salesianos e àqueles jovens maravilhosos, depois de ter me encontrado com eles, depois de ter visto o seu sorriso e de ter sentido o aperto afetuoso do seu abraço que exprimia uma confiança sincera. Tudo isso eu trago no coração e todos os dias os recordo nas minhas orações.

 

Momentos que não se apagam

Depois, com tristeza e dor, viajamos para Alepo, enquanto outros mísseis caíam sobre Damasco, com a sua carga de morte. Em Alepo encontramos outros irmãos salesianos, outras irmãs FMA e aqueles maravilhosos jovens e famílias, filhos do oratório que, como em Damasco, continuavam a ser motivo de esperança.

 

Foram comoventes as promessas de 13 novos Salesianos Cooperadores (jovens e mães de família). E experimentei de novo a dor da perda de pessoas queridas e da destruição, aqui real, total, daquela que tinha sido uma linda cidade. Mas encontrei mais uma vez dignidade, força, esperança e fé.

 

Ao completar a minha visita, desta vez o que recebi não foi uma bela estola com a frase em árabe, mas algo que me surpreendeu com uma emoção tal que me deixou sem palavras. Foi o momento em que, no oratório salesiano, o diretor me entregou tudo o que as crianças, os jovens e suas famílias tinham recolhido durante um longo período, para que eu fizesse chegar aquelas doações a outras localidades mais pobres e que estivessem sofrendo mais do que a deles. E eu me perguntava se haveria alguma…

 

Deram-me tudo o que tinham conseguido obter, privando-se ainda de alguma coisa naquela ruína total. Eram duzentos dólares, que para mim valiam uma fortuna e como tal a receberam no oratório salesiano de uma fronteira martirizada, em Tijuana, no México. Logo os dois oratórios se puseram em comunicação. Os pobres entre si compreendem-se muito bem, porque falam a mesma linguagem, a da verdadeira humanidade.

 

Esta, meus amigos, é a experiência que vivi no encontro com os nossos irmãos e filhos, que apesar de tudo não perderam nem a dignidade, nem a esperança, nem a fé. Esta é a minha mensagem de amor e de reconhecimento que voa de Damasco e de Alepo. Espero que muitos corações se unam a ela.

 

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