Quarta, 07 Junho 2017 12:31

A nossa visita ao campo de refugiados: também ali o Senhor ressuscitou

Escrito por 
Classifique este artigo
(0 votos)

Todos os meses, o Reitor-mor dos Salesianos escreve um artigo para os leitores do Boletim Salesiano. Na edição de junho, ele fala da visita realizada ao Campo de Refugiados de Kakuma, no Quênia.

Hoje, amigas e amigos leitores, desejo partilhar com vocês a forte impressão que senti ao viver uma profunda experiência humana. Trata-se da visita que realizei, juntamente com outros salesianos, ao Campo de Refugiados das Nações Unidas de Kakuma (Quênia). Foi há uma semana. Compreenderão que a visita a um campo de refugiados causa sempre grande impressão. A isto se junta uma motivação muito particular e importante. É a seguinte: queria estar próximo não só dos refugiados do Sudão do Sul, Ruanda, Burundi e Congo, entre outros, mas também poder saudar e abraçar os meus irmãos salesianos, nessa bela comunidade em que cinco salesianos de Dom Bosco (da Tanzânia e do Quênia) partilham a sua vida com essas 150.000 pessoas, muitas delas meninos, meninas e jovens. A comunidade vive no meio do campo de refugiados, há já muitos anos. É algo incomum, mas assim foi e assim continua a ser, não só com a permissão mas também com o apoio do comité responsável das Nações Unidas, porque a obra salesiana é um importante elemento gerador de convivência, sociabilidade, educação e formação. Eu lhes direi a razão disto.

 

Valdocco africano

Ao chegar à cidade de Kakuma, muito próxima da fronteira com o martirizado Sudão do Sul, atualmente envolvido em conflitos tribais internos muito violentos, encontramo-nos no meio do povo Turkana, um povo de uns 340.000 habitantes que vivem nesta zona do noroeste do Quênia, região muito seca e de altas temperaturas. Atravessado o leito de um rio totalmente seco, chega-se ao campo de refugiados das Nações Unidas, onde vivem mais de 150.000 pessoas. Neste campo encontram-se as mais variadas raças e tribos, os mais variados costumes e as mais diversas confissões religiosas. E, no meio dessa diversidade, os nossos irmãos Salesianos de Dom Bosco conseguem ser, para muitos deles, o que Dom Bosco foi para os seus rapazes de Valdocco. Ali encontrei outro Valdocco, agora do século XXI e com traços totalmente africanos.

Mais de 250 jovens vão diariamente à modesta escola de formação profissional em que, com a ajuda de alguns instrutores e dos nossos irmãos salesianos, se aprende um ofício: alvenaria, instalações elétricas, eletrônica, trabalho em madeira e outros elementos, administração, secretariado etc. Em suma, profissões humildes que podem permitir a esses jovens, ao sair do campo, quando houver condições de paz e de sobrevivência, ir para onde quiserem, levando ‘na sua mochila’ algo que lhes permita viver com dignidade.

Ali mesmo se faz diariamente a comida para essas centenas de jovens e outras pessoas. A alimentação é proporcionada na sua maior parte pelas Nações Unidas, que asseguram todos esses serviços. Compartilhamos o almoço com aqueles jovens. Comiam-se pratadas de arroz com muito apetite e com um grande sorriso. Mostravam-me as suas pequenas oficinas e o que estavam aprendendo. As moças e os rapazes eram, em sua maioria, quase adultos, mais do que adolescentes.

 

Escola para a vida

Senti realmente que aquela casa era uma verdadeira escola que prepara para a vida. Aprendem uma profissão humilde, mas nem por isso com menos valor, bem pelo contrário, dado que aprendem na sua vida quotidiana a conviver na diversidade, a viver em paz, a unir esforços, a valorizar a diferença, a respeitar todas as opiniões e expressões culturais e religiosas.

Tive a oportunidade de cumprimentar a senhora representante das Nações Unidas, responsável na relação com a obra salesiana. Tomou parte na nossa refeição em que comemos o prato de arroz. Senti grande alegria ao ouvir da sua boca quanto apreciam a presença dos nossos irmãos e essa colaboração (em parceria) existente entre as Nações Unidas e a Congregação Salesiana. Também lhes agradeci por nos permitirem trabalhar ali no meio daqueles jovens. Porque, além disso, não é um trabalho assistencial ou de sobrevivência. Pode sê-lo no início, quando chegam sem proteção, mas depois transforma-se, como já disse, numa preparação para a vida num futuro mais ou menos próximo.

Fiquei muito feliz com a alegria da casa e do ambiente. Os jovens sentem-se realmente em casa no tempo que ali passam. E além disso não estamos sós, embora só a comunidade salesiana viva no campo de refugiados e mais ninguém a não ser refugiados. Encheu-me de alegria sentir a proximidade do jovem bispo. Há uma sintonia total e a colaboração está sempre assegurada, bem como com uma comunidade de religiosas de uma congregação com a qual, também desde há alguns anos, compartilhamos a missão em Turkana.

 

Sonhos

O sonho é conseguir ter outra comunidade salesiana, mas não no campo de refugiados e sim em território Turkana - atravessado o leito seco do rio - e, na medida do possível, continuar a ampliar a escola de formação profissional em dimensão e em nível, para que esteja também a serviço dos jovens Turkano.

Ao mesmo tempo, a comunidade atende uma paróquia católica no campo de refugiados e mais nove lugares de culto (dada a grande extensão de território para uma população assim). E neste cuidado também da fé das pessoas que o solicitam ou que cuidam da sua fé no Senhor Jesus, sente-se que realmente a Páscoa aconteceu também no campo de refugiados, porque Jesus ressuscita para todos e em especial para os últimos, os mais pobres, os marginalizados e ignorados deste mundo.

Eu regressei. Todos eles lá ficaram, mas vim com o coração repleto desta alegria de ter experimentado pessoalmente como no meio da pobreza há tanta humanidade e tanta presença do Deus do Amor.

Desejo-lhes tudo o que há de melhor e que nunca percamos a sensibilidade perante jovens, mulheres e homens como estes que nos trataram como amigos e irmãos.

 

Lido 694 vezes Modificado em Quarta, 07 Junho 2017 18:15

Deixe um comentário