Quarta, 06 Junho 2018 13:18

O povo da Nicarágua clama pela paz Destaque

Escrito por  José Carlos Martínez - ANS
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O povo da Nicarágua clama pela paz Foto: ANS

Já são 45 dias que a paz na Nicarágua vem deteriorando. O fim da violência era um dos pedidos mais claros, mas o número de mortos subiu a mais de 90. O número de feridos, a centenas. Há duas semanas, numa mesa de diálogo com o Presidente Daniel Ortega, o jovem Lester Aleman dirigira-se com firmeza total ao Presidente: “Nós lhe pedimos para ordenar o fim desses ataques, da repressão e do assassinato pelas forças paramilitares das suas tropas...”. Uma voz não ouvida.

 

O processo que a Igreja Católica iniciara com o “diálogo nacional” chegou a um ponto morto, quando os representantes de alguns setores, em especial o governo, recusaram-se a enfrentar a questão da democratização do País.

 

Hoje, as ruas tornaram-se campo de batalha entre paramilitares e polícia contra os civis que continuam a manifestar-se pacificamente.

 

A tensão aumenta e isso influencia a realização das atividades sociais normais. Os bloqueios nas ruas – chamados de “tranques” – continuam a ser o único caminho para sair da situação atual, as marchas continuam mostrando a voz de um povo que não se deterá enquanto a justiça e a paz não retornarem.

 

Fotos e vídeos nas redes sociais descrevem a realidade em que a Nicarágua vive atualmente. O mundo inteiro e a comunidade internacional têm uma visão de como caminha a situação tensa e difícil da população nicaraguense.

 

Em Masaya vive-se uma das situações mais difíceis. Domingo, 3 de junho, no centro da cidade, um novo confronto entre as forças da ordem e do governo contra os manifestantes provocou a morte de cinco pessoas, como confirmado pela Associação pelos Direitos Humanos da Nicarágua (ANDDH).

 

Os hospitais têm ordem de não cuidar das pessoas feridas nas manifestações, por isso o Instituto Dom Bosco abriu suas portas e, com a ajuda de médicos, voluntários e pessoas de bom coração, provê às necessidades de quem precisa de cuidados. As atividades educativas da escola continuam suspensas, enquanto os Salesianos permanecem oferecendo fé e esperança a um povo que invoca a paz em alta voz.

 

Por sua vez, o Centro Dom Bosco de Manágua e o Instituto Dom Bosco de Granada continuam o seu trabalho habitual, com algumas medidas normais de segurança e sempre atentas à evolução da situação.

 

Morre um jovem do oratório salesiano

Ontem, 5 de junho, pelas 5:30 da manhã estouravam combates entre gangues e grupos que defendem a cidade. As gangues são apoiadas pela polícia. Àquela hora teve início uma batalha campal no setor da igreja Xalteva, a poucas centenas de metros do Instituto Salesiano Dom Bosco, de Granada.

 

Às 7:45 alguns manifestantes foram presos e foi feita uma barricada a uma quadra da escola. A situação logicamente alarmou os pais dos alunos, que decidiram chamar seus filhos de volta. Ao redor, era possível ouvir os tiros de morteiros, disparos e lançamento de bombas de gás lacrimogêneo.

 

O jovem José Maltez, de 22 anos, oratoriano, deixara sua casa para observar a situação. “O jovem foi morto por um tiro preciso no peito, segundo o modus operandi usado pela polícia nacional para ‘justiçar’ os manifestantes”, disse um porta-voz dos “autoconvocados” de Granada à agência EFE.

 

Pelo meio-dia, a batalha transferiu-se para o centro histórico da cidade. As gangues combateram contra as pessoas que procuravam defender seus negócios e bancos no centro comercial da cidade.

 

No mesmo dia, paramilitares e agentes da polícia nacional incendiaram a Prefeitura de Granada e atacaram os moradores do bairro. Fontes locais referem que dentro eram conservadas munições e bombas de gás.

 

Hoje, as batalhas acontecem no setor “Arroyo Carita”, rua “Sor Maria Romero” e no mercado municipal. Também o centro histórico da cidade está em plena guerra. Novos e mais fortes ataques são esperados para esta noite.

 

Esses gestos de violência são verificados em meio a uma crise sociopolítica que, justamente em 5 de junho chegou a 50 dias, e deixou no campo ao menos 127 mortos e mais mil feridos, segundo a Comissão Internacional dos Direitos Humanos (CIDH).

 

Morre o Salesiano Cardeal Miguel Obando

 

Os Salesianos da Nicarágua comunicam à comunidade educativa e à Família Salesiana que domingo, 3 de junho, às 3:48 h. da manhã, foi para a Casa do Pai o Salesiano, bispo emérito e cardeal Miguel Obando y Bravo.

 

Miguel Obando y Bravo morreu aos 92 anos de idade. Era uma figura emblemática da Igreja Católica, que se distinguiu pelo seu papel de mediador nos exasperados conflitos militares e políticos vividos pelo País centro-americano. É certo que a situação política nem sempre teve um papel preponderante na tomada de posição a favor ou contra uma pessoa; contudo, poderia ser esse o caso do cardeal Obando; mas o seu trabalho em favor do povo fala muito mais da sua pessoa e da sua vida.

 

O cardeal viveu um período excepcionalmente difícil na história da Nicarágua, com correntes contraditórias. “Fustigou o regime de Anastasio Somoza, com um rigor que ninguém lhe nega – escreveu sobre ele D. Urtasun –. E o fez porque, com as suas mesmas palavras, ‘o mal deve ser desafiado, combatido e superado’. Somoza acabou por chamá-lo de ‘Comandante Miguel’. Com a mesma coragem enfrentou os comandantes sandinistas, rodeado por um povo crente, que seguia o seu pastor, desfraldando a bandeira de Cristo”.

 

“Muitos o apoiam incondicionalmente e demonstram o seu apreço com respeito e gratidão – continua Urtasun –. Veem na pessoa do cardeal um pai, um guia, o bom pastor. Outros, menos, olham-no com desprezo e desconfiança, porque Obando, para eles, era incômodo, pois representava a consciência crítica dos excessos do governo. A atitude prolongada, assumida em encorajar a reconciliação do seu povo levou-o a agir como mediador em diversas ocasiões”.

 

O cardeal salesiano fora “Prócer da Paz e da Reconciliação” da Nicarágua pela Assembleia Nacional de 2016.

 

Miguel Obando y Bravo nasceu no dia 2 de fevereiro de 1926 em La Libertad, província de Chontales, no centro do País. Proveniente de uma família de agricultores, depois de completar os estudos na Congregação Salesiana foi ordenado sacerdote em 10 de agosto de 1958. Foi nomeado bispo em 31 de março de 1968, em fevereiro de 1970 foi feito arcebispo de Manágua e, em 25 de maio de 1985, foi criado cardeal pelo Papa João Paulo II.

Fonte: ANS

Lido 241 vezes Modificado em Quarta, 06 Junho 2018 15:13

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