Segunda, 19 Fevereiro 2018 13:05

Educação e resiliência...

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Situações pessoais e sociais traumáticas ocasionam não só consequências negativas. Indivíduos e grupos, embora sendo expostos a situações traumáticas, pessoais, familiares e sociais, conseguem desenvolver-se bem e continuar crescendo, apesar destes acontecimentos adversos. A isto se chama de resiliência.

 

Que fatores, internos e externos, ajudaram para que crianças, adolescentes ou adultos conseguissem superar essas fortes adversidades e continuassem projetando-se sadiamente em relação ao futuro? O enfrentamento desta questão é transdisciplinar. Sobre ela se debruçam psicólogos, sociólogos, pedagogos, psicanalistas, médicos, neuropsiquiatras, etnólogos e teólogos.

A palavra resiliência é tomada da física dos materiais. É uma força de resistência ao choque e de recuperação. Significa a capacidade elástica de um material para recobrar sua forma original depois de ter sido submetido a uma pressão deformadora. Ser resiliente significa vencer as provas e as crises da vida, isto é, resistir a elas primeiro e superá-las depois, para seguir vivendo o melhor possível.

Resiliência é a capacidade para desenvolver-se bem, para continuar projetando-se apesar de acontecimentos desestabilizadores, de condições de vida difíceis e de traumas às vezes graves. É a capacidade humana de lidar, superar, aprender ou mesmo ser transformado com a adversidade inevitável da vida. Esta capacidade de proteção permite a uma pessoa, um grupo ou uma comunidade impedir, diminuir ou superar os efeitos nocivos da adversidade. Implica tentar transformar momentos traumáticos e situações difíceis e inevitáveis, em novas perspectivas.

Atitudes de resiliência podem ser promovidas com o apoio de pessoas ou instituições (família, igreja, escola, centro de saúde, organizações ou associações sociais ou políticas etc.) que se preocupam em motivar a ativação das capacidades de superação das dificuldades. Sublinho três meios importantes neste sentido.

 

O outro como ponto de apoio na adversidade

Este “outro” pode ser tanto um jovem como um adulto, membro da família, quanto um amigo, educador, religioso ou agente de saúde. Um traço comum destas figuras significativas na vida da pessoa que sofre é o fato de elas transmitirem sua aceitação incondicional à pessoa que passa por uma situação difícil. O ser humano é influenciado pelas expectativas e pelo olhar dos outros, de familiares, amigos, vizinhos, educadores. Seres humanos de todas as idades são mais felizes e mais capazes de desenvolver seus talentos quando estão seguros de que, por trás deles, existem pessoas que virão em sua ajuda caso surjam dificuldades. Ninguém consegue viver se não tiver pessoas significativas que servem de estímulo.

Isso só acontece quando há pelo menos uma ou mais pessoas significativas que mantêm com a criança, adolescente ou adulto que sofre, um vínculo positivo forte. Quando há alguém que acredita no potencial da pessoa, que sabe ouvi-la e pode ajudá-la a desenvolver suas capacidades de superação.

Muitas pessoas que passaram por situações difíceis, sentindo-se acolhidas com carinho e compreensão, escutadas, valorizadas e aceitas incondicionalmente, encontram conforto e capacidade para assumir com sentido de esperança estas dificuldades e sofrimentos.

Também nos relatos bíblicos se pode descobrir exemplos de resiliência. É só olhar a parábola do filho pródigo. O que mais chama a atenção não é o procedimento do filho, mas a atitude do pai acolhedor.

Aqueles que sofreram violência, mas, ao falar, tiveram a sensação de não serem escutados, reviveram a sensação do trauma. Aqueles, ao contrário, que sentiram receptividade na escuta, quando narraram o que padeceram, começaram a perceber um sentimento de auto-estima, pertença e contenção.

 

Ambientes protetores

Pessoas significativas são importantes, mas conjugadas com ambientes protetores. Tenho acompanhado ultimamente crianças e adolescentes em adoção. A retirada do poder familiar de uma criança ou adolescente é um ato muito traumático. Acolhidas em abrigos o mais das vezes com grandes deficiências e, sobretudo, à espera de uma adoção que nem sempre chega, crianças e adolescentes encontram-se muito vulneráveis. No entanto, concluído o processo de adoção pode-se, através do amor, reconstituir os vínculos na nova família.

O mesmo se diga de crianças e adolescentes vítimas de violência física e sexual em suas famílias. Infelizmente isto é mais comum do que se pensa. Diz-se que os quatro primeiros violentadores dos vulneráveis são membros da própria família. Apenas o quinto é de fora. Como pode haver resiliência neste contexto? Escolas protetoras, serviços de saúde protetores, serviço policial protetor, Igrejas protetoras podem ajudar a criar ambientes mais saudáveis para os agredidos.

Dom Bosco trabalhou muito fortemente nesse sentido. Para ele, o ambiente educativo carregado de ternura, de acolhida e de empatia é fonte de resiliência. O mesmo se diga do cultivo da dimensão religiosa. Todos podem abandonar você, menos Deus.

 

Resiliência e religião

Diversas pesquisas têm revelado que a crença religiosa pode ser considerada um pilar de resiliência. Isto porque as religiões podem transmitir uma filosofia de vida. Crer em Deus se transforma num escudo protetor importante para adquirir resiliência na vida.

Encontrei-me com uma senhora que foi tomada por um câncer. Numa conversa que tive com ela, me disse que no início perguntava a Deus: “Por que isso me aconteceu?” À medida que o tempo foi passando ela começou a mudar a pergunta: “Para que isto aconteceu comigo?” A situação adversa é a mesma, mas a forma de encará-la é diferente.

Viktor Frankl, tendo sobrevivido depois de quatro campos de concentração e da perda dos pais, da esposa e do filho por extermínio, escreveu um livro famoso no qual explicita uma nova abordagem terapêutica: a logoterapia, isto é, a cura através do sentido. Para ele não há situação adversa que não possa ser vencida pelo enraizamento de um sentido profundo para a vida. Geralmente as religiões trabalham fortemente com isso.

Não são poucas as pessoas que afirmam que só uma forte experiência de amor, humano ou divino, conseguiu dar-lhes novamente uma razão para lutar e para continuar a vida, oferecendo-lhes um sentido para viver e superar-se.

 

Concluindo...

Vivemos num mundo altamente problemático. Muitas pessoas e situações tentam destruir pela marginalização e exclusão milhões de pessoas, sobretudo de determinados grupos: mulheres, crianças, adolescentes, idosos, migrantes... Essas pessoas podem ser destruídas sem serem mortas. São as que carregam para o resto da vida traumas profundos. No entanto, muitas delas encontram fonte de resiliência em pessoas significativas, em ambientes protetores e em religiões carregadas de sentido de vida. Para estas pessoas o mal não pode ser o grande vencedor.

Aliás, essa é a grande mensagem do cristianismo. A cruz não é a última palavra, mas a ressurreição. Só que a ressurreição não pode começar apenas na outra vida, mas nesta também. A felicidade humana tem que começar nesta vida.

 

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Marcos Sandrini

Diretor da Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, RS.  

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