Sexta, 10 Fevereiro 2017 15:41

Sou menina! Não escrava...

Escrito por  ANS - Roma
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No dia 8 de fevereiro de 2015 Santa Bakhita foi escolhida pelo Papa Francisco como patrona da Jornada internacional de oração e reflexão contra o tráfico de pessoas que, em breve tempo, tornou-se uma semana de reflexão e aprofundamento  em várias partes do mundo. 
As celebrações são de modalidades  criativas, pensadas por grupos de mulheres que querem sensibilizar e conscientizar, toca tantas pessoas em um movimento que age e procura oportunidades de prevenção por meio do trabalho de “remendar a história”.
 
Na memória litúrgica de Santa Bakhita, filha da África e ‘irmã universal’, cheias de gratidão se contempla alguma coisa que ajuda a entender o sentido profundo da reconciliação, com o passado e suas feridas. “Ainda menina, fui raptada e vendida por seis vezes pelos escravizadores, que me impuseram um ‘nome novo’: Bakhita, a ‘Felizarda’...”
 
De sua experiência de escravidão e de encontros violentos Bakhita poderia ter ficado com uma personalidade desintegrada, com o coração cheio de ressentimento e desespero, com a tentação de remover e ignorar feridas ainda abertas. Ao contrário, o encontro com a fé cristã se torna a experiência que lhe permite recolher todo o passado, sem atirá-lo fora e querer esquecê-lo à força, sem contentar-se em perdoar quem lhe tenha feito mal.
 
Bakhita faz muito, muito mais com a ajuda da graça: consegue integrar plenamente o mal recebido, dá-lhe um sentido novo, transforma-o e transfigura-o, e o vive realmente como bênção. “Se encontrasse aqueles traficantes de pessoas que me raptaram e aqueles que me torturaram", afirma, "eu me ajoelharia para beijar-lhes as mãos, porque se não tivesse acontecido isto eu não seria agora cristã e religiosa.” 
 
Em Bakhita se vê agir aquela atenção singular que Deus tem para com o nada da pessoa humana: quando a pessoa “aceita o seu nada” atrai a simpatia de Deus e sobre ela desce a bênção. Assim Bakhita... “No Crucifixo descobri o significado do amor de Deus sem limites...” Ninguém teria pensado que àquela escravazinha teria sido reservado um futuro de santidade glorioso e fascinante, que hoje é expressão do Tudo do Eterno: “O amor de Deus, sem que eu soubesse, me precedeu sempre e acompanhou, por caminhos misteriosos, até a conquista da liberdade da escravidão”.  
 
Em Roma a comissão organizadora, da qual fez parte também o Instituto FMA, realizou de 1º a 8 de fevereiro uma série de encontros (uma conferência de imprensa, um seminário, um cine-forum, uma vigília de oração e a audiência com o Papa Francisco) com o apoio de instituições eclesiais e civis. Na realização da semana se objetivou a projeção de um processo de educação preventiva para combater e cuidar de modelos de exploração e relacionamentos pouco saudáveis. Todos os encontros puseram em evidência a força transformadora e libertadora que têm as mulheres, consagradas e leigas, ao lado de outras mulheres. 
 
“São meninos, não escravos!” é o tema deste ano, mas seria mais correto dizer: “São meninas, não escravas!”, porque dos 28% dos menores vítimas de tráfico, 20% são formados justamente por meninas e garotas. E das vítimas no mundo, 71% são femininas.
 
*Ir. Carmen Sammut – msola, presidente da União Internacional das Superioras Gerais (UISG) com Ir. Gabriella Bottani – cms, coordenadora de Talitha Kum, a rede mundial da vida consagrada contra o tráfico de pessoas, puseram em evidência o fato de que “a escravidão foi abolida há dois séculos, mas na verdade, nunca tivemos tantos escravos como hoje, e nunca custaram tão pouco... a vida humana vale sempre menos”. 
 
Enquanto se nota um esforço crescente, graças ao trabalho integrado conduzido por dicastérios vaticanos, pela Caritas Internationalis e Talitha Kum procurando sensibilizar as Igrejas, percebe-se a urgência de trabalhar sempre mais em estreita colaboração com as forças da ordem e as insituições civis, sabendo bem que traficantes e clientes são os dois ‘nós poderosos’ do tráfico das pessoas, que ‘promovem a oferta’, mas muitas vezes não são atingidos por qualquer legislação seriamente aplicada. 
 
Quando se pensa nos menores, sabe-se que as crianças não falam do drama que vivem, muitas vezes fica dentro deles até a idade adulta. Por isso é importante a prevenção – primária, secundária e terciária – de quem está em grande risco, até o cuidado com quem sofreu tal violência. É necessário reconstruir relacionamentos que permitam a todas as pessoas, sobretudo a crianças e adolescentes, crescer na beleza que o outro ou a outra pode ser na própria vida. 
 
As religiosas empenhadas nesse setor, em muitas nações do mundo (cfhttp://www.talithakum.info/), iniciaram já iniciativas e atividades que, de forma embrional, estão crescendo e se consolidando. Sente-se a urgência de mudar o paradigma de desenvolvimento, de construir um novo, para poder enfrentar estes problemas em escala mundial, como afirmou o Cardial Turkson, confirmando que com o novo Dicastério pontifício é possível ser sempre mais ativos e próximos das vítimas do tráfico, especialmente quando se trata de crianças. 
 
São muitos os testemunhos de pessoas proeminentes, envolvidas diariamente neste esforço profissional e vocacional, que compartilharam contribuições atualizadas e úteis e contaram com naturalidade gestos diários de ternura, companhia e confiança, que curam feridas no corpo e na alma e reabrem horizontes de vida e esperança:
 
*Ir. Rosalia Caserta, da congregação das Servas da Divina Providência e responsável da Casa Família para menores São José, em Catania, diz: “As meninas que são recebidas em nosso Instituto chegam com o coração e o corpo cheios de violência. Nós as ajudamos a fazer reflorescer nelas a vontade de  viver e de fazer frutificar os próprios talentos, antes de tudo mandando-as à escola e envolvendo-as em oficinas de artesanato...”
 
*A Dra. Iana Matei, corajosa mulher romena, presidente da ONG Reaching Out Romania, tem a garantia da recuperação de 82% das pessoas, capazes de reassumir a própria dignidade e de reapropriar-se da própria vida, sobretudo, se forem jovens. Realmente, grande parte do sucesso depende da duração da experiência de abuso, seja de qualquer gênero, e da bondade das práticas e das iniciativas atuadas na fase de recuperação. 
 
*Giampaolo Trevisi, diretor da escola de Polícia de Peschiera del Garda, e autor do livro “Folhas de caminho”, onde narra sua experiência com os imigrados, muitos dos quais menores não acompanhados, por meio de suas esperanças, medos e emoções. 
 
Na escuta, muitas vezes comovida, das falas, dos compartilhamentos, das contribuições para uma ação de combate, refletiu-se sobre a responsabilidade e a tarefa, às quais não podemos mais subtrair-nos, de dar a todas as pessoas traficadas, e especialmente a crianças e adolescentes, a esperança de um futuro diferente e melhor. 
 
A reflexão confluiu na Vigília de Oração na igreja de Todos os Santos – Roma, que contou com grande presença do provo de Deus.  Rezou-se, ouviram-se testemunhos de religiosas e nos sentimos interpeladas pelo Senhor a sermos sempre mais  criativas, com amor apaixonado ao lado de meninas e meninos que sofrem tanto e tão injustamente... 
 
O Bispo Ruzza, auxiliar de Roma, de uma forma sincera disse: “Esta é uma oração de denúncia que nasce da indignação do coração, para gritar ao mundo o escândalo que está sendo perpetrado em prejuízo destes pequenos!  Por trás desta escravidão há  cumplicidades embaraçosas e inquietantes e muita indiferença para com as crianças que sofrem. Tornemo-nos a voz deles! Testemunhemos os sofrimentos que suportam para que não aconteçam nunca mais!”
 
Também a projeção noturna do filme “Talking to the trees” na Casa do Cinema, na Vila Borghese de Roma, foi muito participada e tocante: um filme-denúncia da chaga do turismo sexual que, segundo a estimativa da associação Ecpat, envolve uns 40 milhões de crianças em 82 países do mundo. Diretor, intérprete e produtora do filme é Ilaria Borrelli presente na projeção e que compartilhou os motivos de seu esforço de luta contra o tráfico de pessoas. No filme ela  conta, de maneira dura e ao mesmo tempo delicada, a abominação de um mercado de menores obrigados a se prostituir. Vendidos ou raptados de suas famílias, às crianças não resta senão ‘falar com as árvores’, encarnação animista dos falecidos e única margem para contar o desespero cotidiano do coração. É uma história ambientada no Camboja, mas poderia acontecer em qualquer outra parte do mundo.
 
É um chamado hoje, para tantas mulheres, consagradas e leigas: um trabalho educativo nos espera, uma tarefa de “remendar a história”.  Para acabar  com este tráfico maléfico e devastador, que já atingiu todos os países do mundo,  de modos diferentes e perversos, ocorrem a responsabilidade e a capacidade de tecer redes de solidariedade, típicas de nós, mulheres, mães e irmãs que costuram novamente, com ternura e humildemente, a vida ferida.
 
#sãocriançasescravas 
Para aprofundar:http://www.talithakum.info
https://www.facebook.com
https://www.youtube.com
 
Veja também: http://www.cgfmanet.org/21.aspx?lingua=5&sez=21&sotsez=1&detsotsez=1&doc=1163#sthash.v1OpPnOY.dpuf
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