Sexta, 14 Setembro 2012 02:17

A Oração do Senhor: “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu”

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Para compreender o significado do terceiro pedido do Pai Nosso, que é exclusivo da redação de Mateus, devemos refletir sobre o significado da vontade de Deus no contexto bíblico e o seu cumprimento por nós.

 

Observando a tradição do Antigo Testamento compreende-se que fazer a vontade de Deus equivale a observar os mandamentos e colocá-los em prática na vida cotidiana. No Novo Testamento a relação com Deus e com a sua vontade é colocada sobre as novas bases de Jesus. Tudo o que está comprometido com o pecado tem necessidade de ser restaurado em Cristo. São Paulo afirma que nós estamos imersos em um projeto de salvação de Deus, que é realizado pelo seu Filho unigênito, Verbo encarnado.

São Paulo sintetiza o objetivo do universal projeto divino nestes termos: Deus “quer que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e a humanidade: o homem Cristo Jesus, que se entregou como resgate por todos” (1 Tm 2, 4-6). Na sua primeira carta aos Tessalonicenses (4,3) o apóstolo recordava-os que “esta é a vontade de Deus, a vossa santificação”.

 

No Pai Nosso

No contexto do Pai Nosso, “vontade de Deus” além de significar decisão e comando, exprime também desejo e complacência. É uma expressão que recorda à mente o desejo de Deus de vir ao encontro dos homens para liberá-los do pecado e unirem-se a Ele. Por isso quando dizemos: “Seja feita a Vossa vontade”, pedimos a Deus que intervenha a nosso favor na realização deste seu projeto de salvação, tornando-nos disponíveis em acolhê-lo e a vivê-lo de tal modo a adequar a nossa vontade à Sua.

Toda proposta que Deus nos faz tem um duplo resultado. Refere-se a Ele e ao Seu agir, mas refere-se também a nós, porque implica uma livre escolha de nossa parte para realizar-se. Se lê no Evangelho: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor! ’, entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21-23).

 

Dificuldade na adesão à vontade de Deus

Não basta conhecer a vontade de Deus. É preciso aderir a ela plenamente. Mas esta adesão não é fácil, porque o nosso egoísmo e as seduções da carne nos impelem na direção oposta. Jesus adverte: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26,41). São Paulo recomenda: “Portanto, ficai bem atentos à vossa maneira de proceder. Procedei não como insensatos, mas como pessoas esclarecidas... Não sejais sem juízo, mas procurai discernir bem qual é a vontade do Senhor” (Ef  5,15. 17).

Para nós, cristãos, fazer a vontade de Deus não consiste somente em obedecer aos mandamentos do Cristo, mas em assimilá-los. Esta vontade é um modo novo de viver a própria existência em Cristo, que tem o seu fundamento no exercício da caridade diante de Deus e diante do próximo.

As duas notas que sustentam de várias maneiras a estrutura do Pai Nosso são a paternidade de Deus e a filiação divina adotiva. Estas duas notas, se forem bem compreendidas e vividas, só podem incidir positivamente sobre a qualidade da nossa vida cotidiana.

A oração deve nos ajudar a enfrentar as provas da vida e a aceitar aquilo que a consciência correta nos sugere como vontade de Deus. Com as nossas próprias forças não chegaremos nunca a ser plenamente justos, isto é, santos. A vontade é condicionada por uma força de gravidade que nos deixa presos às coisas terrenas, por isso nos leva a esquecer de Deus. Somente o olhar fixo em Jesus pode induzir-nos a seguir o Seu exemplo no cumprimento da vontade divina.

 

Exemplo de Jesus

O programa de vida de Jesus, relativo ao cumprimento da vontade do Pai, obtém-se de algumas de suas afirmações: “Não vim para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,30). Na redação de Mateus (26,39.42) lê-se: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice! Mas não como eu quero, mas como queres tu!”, e de novo, pouco depois: “Meu Pai, se este cálice não pode passar por mim sem que eu o beba, seja feita a tua vontade”.

Esta oração de Jesus é cheia de angústia frente à iminência da paixão, mas confiante. Com o título “meu Pai”, que exprime ternura e abandono filial, pede ao Pai para ser liberado, mas logo acrescenta que aceita totalmente a vontade Dele. E é graças a esta submissão que Jesus torna-se transparente como o Pai, para poder dizer: “Quem viu a mim, viu o Pai” (Jo 14,9).

A nossa vontade é condicionada por uma força que nos deixa presos às coisas terrenas, por isso nos leva a esquecer de Deus, a presumir que podemos fazê-lo sozinhos. Somente o olhar fixo em Jesus, pode induzir-nos a seguir o seu exemplo no cumprimento da vontade divina.

 

“Assim na terra como no céu”

Esta conclusão se refere a todos os três primeiros pedidos do Pai Nosso. Essa, à primeira vista, poderia significar simplesmente que o nome de Deus seja santificado, o seu reino seja cumprido e a sua vontade, realizada. Nesse sentido, teria já um grande valor como oração universal e missionária idônea a destacar a soberania universal de Deus sobre a criação. Mas pode significar também que, como no céu, a santificação do nome de Deus, o cumprimento do seu reino e a ação da sua vontade já têm alcançado a perfeita realização, o cristão que deseja alcançá-la deve retirar os critérios de avaliação das suas ações, não do mundo, mas do ensinamento de Jesus.

Se na oração do Pai Nosso desejamos sintonizar-nos com a universalidade do conteúdo destes três primeiros pedidos, nada nos resta que repetir com São Francisco de Sales: “Jesus, eu só tenho um desejo: faça que sejam meus todos os seus desejos”.

 

Padre Agostino Favale, SDB,é professor emérito de História da Igreja Moderna e Contemporânea e de Espiritualidade da Universidade Pontifícia Salesiana de Roma, consultor da Congregação para a Causa dos Santos e autor de mais de 180 obras.

Tradução: Elaine Tozetto.

Lido 29407 vezes Modificado em Quinta, 28 Agosto 2014 20:38
Agostino Favale

 

Padre Agostino Favale, SDB, é professor emérito de História da Igreja Moderna e Contemporânea e de Espiritualidade da Universidade Pontifícia Salesiana de Roma, consultor da Congregação para a Causa dos Santos e autor de mais de 180 obras.  

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