Sábado, 19 Novembro 2016 18:32

A alegria do amor Destaque

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Para falar da família não existe outra linguagem, apenas a do amor. Apontar caminhos não significa condenar os outros, mas chamá-los à comunhão e à participação.

Em março de 2016, o Papa Francisco lançou um documento importante. Trata-se da exortação apostólica Amoris Laetitia. Ele é fruto de estudo de cerca de quatro anos com a participação de toda a Igreja espalhada pelo mundo. É um grande hino de amor à família. Para falar da família não existe outra linguagem, apenas a do amor. Nada de condenação, nada de excomunhão, nada de marginalização. Apontar caminhos não significa condenar os outros, mas chamá-los à comunhão e à participação.

Enquanto animo você a ler a exortação apostólica “A alegria do Amor”, aponto algumas pistas para sua leitura.

 

Deus é família

Quando falamos de Deus, usamos palavras humanas. São João Paulo II afirmou que “o nosso Deus, no seu mistério mais íntimo, não é solidão, mas uma família, dado que tem em Si mesmo paternidade, filiação e a essência da família, que é o amor”. Quando traçamos o sinal da cruz em nosso corpo, estamos trazendo presente à nossa mente, à nossa boca e ao nosso coração a Santíssima Trindade. Se Deus não é solidão, ele é solidário. Ninguém vive sozinho e ninguém se basta a si mesmo. Cada família é um retrato e uma imagem de Deus Trindade. Esta perspectiva perpassa toda a exortação Amoris Laetitia.

 

A Família é complexa

Somos muito acostumados a simplificar tudo. Ser simples é bom. Simplificar é ruim. Nós somos complexos porque somos muito diferentes e ricos em potencialidades. Conversando com um jovem noivo, perguntei-lhe para quando estava marcado seu matrimônio. Com muita sabedoria e simplicidade me respondeu: “Não tenho data porque ainda não estou amadurecido para dar esse passo. Não sei lidar ainda com minha complexidade. Para casar, é necessário ao menos quatro maturidades. Física, esta eu tenho porque já estou com 25 anos. Econômica, esta ainda não tenho, mas não é a mais importante porque quando duas pessoas têm o mesmo horizonte, assumem sua vida econômica com mais determinação. Psicológica, aqui é que começa a ficar mais sério porque ainda não tenho um controle emocional suficiente para partilhar minha vida integralmente. Espiritual, estou conhecendo minha noiva e ela a mim e estamos unindo nosso projeto de vida em um só”.

 

Um processo dinâmico

Como tudo na vida, também no matrimônio há uma dinâmica a ser posta em ação e respeitada. A cerimônia é a plataforma de lançamento. Depois a vida ou vai em um crescendo ou, então, se esfarela aos poucos. O matrimônio, diz o Papa Francisco, não se pode entender como algo acabado. É preciso por de lado as ilusões e aceitá-lo como é: inacabado, chamado a crescer, em caminho. O “sim” que deram um ao outro é o início de um itinerário.

Depois, para a maioria dos casais, vêm os filhos. Sem deixar de ser marido e mulher, é necessário que se assuma com maturidade o ser pai e mãe. E que dizer da aprendizagem que é ter um filho ou filha? E, ainda, o que é ser filho e ser filha? O Papa constrói uma frase belíssima: “Temos de nos libertar da obrigação de sermos iguais”.

 

Três características

A exortação “Alegria do Amor” (Amoris Laetitia) apresenta a perspectiva do matrimônio e da família cristã. Então, ela aponta com muita convicção três características que não podem faltar em nenhuma família: exclusividade indissolúvel, estabilidade e abertura à vida.

A exclusividade indissolúvel se expressa no projeto estável de partilhar e construir juntos toda a existência. “Quem está enamorado não projeta que essa relação possa ser apenas por certo tempo; quem vive intensamente a alegria de se casar não está pensando em algo de passageiro”.

A estabilidade corta pela raiz a tendência a ver tudo como provisório. A estabilidade é fruto da vontade dos membros da família de permanecerem juntos. Ela é, também, fruto de um desígnio maior que os projetos que nos sustentam e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada.

A abertura à vida proclama que nenhum ato sexual dos esposos pode negar a fecundidade, embora, por várias razões, nem sempre possa efetivamente gerar uma nova vida.

 

Ética da fragilidade

Não existem as famílias perfeitas que a publicidade falaciosa e consumista nos propõe. É mais saudável aceitar com realismo os limites, os desafios e as imperfeições, e dar ouvidos aos apelos para crescer juntos, fazer amadurecer o amor e cultivar a solidez da união, suceda o que suceder.

O olhar de Cristo, cuja luz ilumina cada pessoa, inspira o cuidado pastoral da Igreja pelos fiéis que simplesmente convivem, ou que só contraíram o matrimônio civil, ou então que são divorciados ou separados. Em uma das passagens o Papa diz que “dou graças a Deus porque muitas famílias, que estão bem longe de se considerarem perfeitas, vivem no amor, realizam a sua vocação e continuam caminhando, embora caiam muitas vezes ao longo do caminho”.

Não há condenação nesta exortação apostólica. O que há é um convite à fidelidade no amor, envolvendo o matrimônio na graça de Deus e no amor humano feito de racionalidade, mas de muita paixão pela vida. Um convite a quem apenas contraiu uma união estável que se empenhe para transformá-la num matrimônio cristão para que a graça de Deus os ajude a atingir a plenitude do amor. Um convite aos cristãos para que entendam que certas situações são tão extremas que não há mais possibilidade de continuar como matrimônio cristão. Mesmo assim, a palavra é: acolhida.

 

Promoção e defesa da criança

É muito bonito o carinho com que o Papa se dirige à família na perspectiva da criança e dos filhos. Nenhum filho é uma dívida, mas uma dádiva. Os filhos são precioso dom, presente de Deus, milagre da nova vida. Os filhos são amados antes de chegar. Cada criança está no coração de Deus desde sempre e, no momento em que é concebida, realiza-se o sonho eterno do criador. Isto é plenamente compreensível dentro da perspectiva do profeta Jeremias que diz: “Antes que te formasses dentro do ventre de tua mãe, antes que tu nascesses, te conhecia, te consagrei, para ser meu profeta entre as nações, eu te escolhi” (Jr 1,5). Nenhum filho é erro e nem fruto do acaso. Todos, desde toda eternidade, estão presentes no coração de Deus e no sonho dos pais.

 

Concluindo...

A temática da família sempre foi muito querida à Família Salesiana. Gostaria de acentuar duas atitudes de Dom Bosco em que isso se revela. A primeira é o cuidado com os órfãos e os abandonados. Dom Bosco acolheu em seu oratório grupos de órfãos. Neles construiu a personalidade de numerosos pais e mães que constituíram seus laços de família com dignidade e gratidão. Depois, acolheu muitos adolescentes que saíam de sua terra natal para ir à cidade de Turim, que inchava com o êxodo rural fruto da revolução industrial. Em seu oratório uma expressão era muito forte: “espírito de família”. Os salesianos faziam as vezes dos pais e Maria Auxiliadora, Mamãe Margarida e outras mulheres, faziam as vezes das mães.

Um fio tênue de família é melhor que família nenhuma. A Família Salesiana cultiva e contribui para amadurecer no coração dos jovens o desejo de construir uma família em que reine o amor estável, exclusivo e aberto à vida e à esperança.

Lido 578 vezes Modificado em Terça, 22 Novembro 2016 04:00
Marcos Sandrini

Diretor da Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, RS.  

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