Terça, 15 Setembro 2015 14:25

Vida Religiosa Salesiana: a força de um carisma

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Este artigo, por sua relevância e abrangência, foi dividido em duas partes, a primeira que se segue, traz um apanhado histórico do contexto onde Dom Bosco construiu a Sociedade Salesiana. A segunda e última parte aborda o mesmo tema no contexto presente. Ambas proporcionam momentos de reflexão e evidenciam o arrojo e genialidade do santo dos jovens em sua atemporalidade, do valor de um trabalho calcado em valores que atravessam o tempo.

Neste Ano dedicado à Vida Consagrada, o Papa Francisco nos exorta a narrar nossas histórias como forma de agradecimento a Deus pelo dom do carisma fundacional e a viver com paixão este dom. Por isto, este artigo tem o intuito de rever o significado da vida religiosa salesiana.

No cenário de transformações no qual Dom Bosco viveu (1815-1888), sobretudo a década da revolução Liberal Piemontesa (1850-1860) com a implantação do Estado Laico, com qual modelo de vida religiosa ele sonhou?

No século XIX, os religiosos recebiam da sociedade monárquica católica praticamente todo o sustento. Contudo, a vida religiosa consagrada encontrava-se em pleno processo de reforma desde o pontificado de Gregório XVI (1831-1846) que, diante da fragilidade vocacional da época e da crise na vida comum e dos conselhos evangélicos, derivado do período napoleônico, iniciou uma ampla revisão constitucional de todas as ordens e congregações, continuada depois pelo Papa Pio IX com a reforma do clero, inclusive.

 Um cenário complexo

 

A promulgação da Lei Ratazzi, em 1855, suprimiu 35 institutos, fechou 334 casas religiosas e jogou nas ruas 5.456 religiosos sem nenhum direito civil. Dom Bosco começou uma atividade oratoriana com jovens pobres da periferia de Turim e contou com a ajuda de padres e leigos simpatizantes de tal iniciativa. Não passava pela cabeça dele fundar uma congregação religiosa sob os moldes tradicionais.

Na medida em que a obra de Dom Bosco se consolidava, os olhares dos governantes se voltavam para Valdocco, oratório periférico de Turim repleto de jovens pobres. O próprio ministro Ratazzi em conversa com Dom Bosco, em 1857, sugeriu que ele pensasse na continuidade deste trabalho e lhe aconselhou um estilo de vida religiosa no qual os membros não perderiam a cidadania diante do Estado e seriam reconhecidos como religiosos para a Igreja. Uma mescla até então inovadora. Um ano depois, 1858, Dom Bosco foi a Roma para encontrar o Papa Pio IX e conversou com ele sobre a possibilidade de uma congregação.

Para sua surpresa, o Papa lhe propôs que fundasse uma congregação com votos simples, com vestes e formas de oração também simples e populares, com Constituição adaptada aos tempos e de fácil observância, para manter a cidadania de cada membro e serem religiosos de fato para a Igreja; e assim, chamar de sociedade e não de congregação religiosa. Estes conselhos de Pio IX caíram como uma luva e reforçaram o plano político do ministro Ratazzi.

 

Uma Sociedade da “caridade”

Dom Bosco se voltou aos meninos do oratório e com eles começou um processo de seleção e proposta de vida que ele chamou de “exercício de caridade” aos jovens mais pobres. Iniciou com 18 “pais fundadores”, a maioria jovem: o próprio Dom Bosco, 44 anos, Vitório Alasonati, 47, Miguel Rua, 22, Ângelo Sávio, 24, João Cagliero, 21, João Bonetti, 21, Carlos Chivarello, 24, João Batista Francesia, 21, Francisco Provera, 23, José Lazzero, 22, Francisco Cerruti, 15, Celestino Durando, 19, José Bongiovanni, 23. Cinco deles se inscreveram e depois desistiram: João Anfossi, 19, Luís Marcellino, 22, Segundo Pettiva, 23, Antonio Rovetto, 17, e Luís Chiapale, 16.

No início, esses jovens não tiveram um noviciado para aprender a ser religiosos. Aqui está a diferença fundamental desta nova sociedade religiosa: não eram membros convertidos, mas meninos tocados pelo zelo apostólico de Dom Bosco e que queriam continuar fazendo o que ele fazia - “ser Dom Bosco”, como eles diziam. O único compromisso era o da “caridade”. Isto “encheu os olhos” dos políticos liberais, escandalizou a hierarquia da época e motivou Dom Bosco a continuar aprofundando o ideal de sua obra. A luta entre carisma e poder foi titânica. Ora ele cedia, ora a Igreja teve de ceder.

 

Novo modelo de vida religiosa

Dom Bosco teve de recuar em muitas de suas intuições. Aos poucos, deixou princípios inovadores para a época. Por exemplo, o desejo de ter salesianos internos e externos. Os internos seriam religiosos comprometidos com os conselhos evangélicos e os externos, leigos no mundo, porém, professando a mesma Constituição.

A Igreja não aceitou e o próprio arcebispo de Turim, dom Gastaldi, não aceitou e passou de grande benfeitor a grande opositor da forma como Dom Bosco queria a Sociedade Salesiana. Os meninos se colocavam a serviço uns dos outros nas Companhias, Associacionismo, como regra de serviço cotidiano.

Dom Bosco não fez discursos contra as mazelas sociais que os afligia, tão pouco se colocou como um mensageiro da desesperança. Ele apenas trabalhou. Foi às ruas, aos canteiros de obras, e encontrou os meninos. Dialogou com eles e propôs uma nova vida. Deu a mão a eles e proporcionou: estudo, alimentação, moradia, família, lazer, liberdade e amor. Este foi o profetismo do início e, ao mesmo tempo, a forma concreta de ser servo dos jovens.

Lido 8148 vezes Modificado em Terça, 15 Setembro 2015 20:59
Pe. João Mendonça

Pe. João Mendonça, SDB, nasceu em Manaus, AM, em 1961. É Salesiano de Dom Bosco desde 1982. Mestre em Educação com especialização em metodologia para a formação religiosa e presbiteral pela Pontificia Universidade de Roma. Pós graduado em Comunicação pelo SEPAC – PUC/SP e Educação Sexual pela Unisal/SP. Durante 4 anos foi coordenador da pastoral da inspetoria São Domingos Sávio/Manaus, delegado inspetorial para a Família Salesiana, vice-diretor da comunidade Santo Tomás, Pio XI – Lapa, Diretor do pós-noviciado de Manaus e atualmente é pároco.

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