Quinta, 06 Março 2014 19:57

CF 2014: “É para a Liberdade que Cristo nos libertou” Destaque

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“O tráfico de pessoas é uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas!” (Papa Francisco).

A Campanha da Fraternidade deste ano converge um brado em defesa de um público de risco dos mais preciosos. Crianças, adolescentes e jovens, a maioria pobre, são alvo de uma rede criminosa e que tem se mostrado uma das mais rentáveis práticas da criminalidade, perdendo apenas para o tráfico de drogas e de armas, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo a ONU, o tráfico de pessoas movimenta anualmente US$ 32 bilhões em todo o mundo, sendo que cerca de 10% desse dinheiro passa pelo Brasil. Desse valor, 85% provém da exploração sexual, mas a gama de crueldade dos traficantes tem seu extremo no tráfico de órgãos, e a morte, por consequência.

Irmã Maria Guadalupe Lara, FMA, faz parte da Rede "Um grito pela vida" e reitera a importância do tema da CF para fazer reverberar os antídotos contra esse mal. "Apesar da escravidão, exploração de trabalho ou sexual serem práticas vigentes na humanidade desde tempos remotos, realmente não faz 10 anos que formamos essa rede, o que considero muito pouco para a abrangência do problema. Por conhecer suas dimensões, nós que fazemos parte da rede queríamos muito que a CF acolhesse esse tema há dois anos”, relembra. “Tráfico de pessoas é uma coisa muito maior do que exploração sexual de mulheres. Contempla exploração de trabalho, adoção de crianças e tráfico de órgãos, e a sociedade como um todo precisa saber que isso existe e está em crescimento, no Brasil e no mundo”.

Na Quarta-feira de Cinzas, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dá início à Campanha da Fraternidade, e a rede formada pela Igreja Católica no Brasil imediatamente faz ecoar a mensagem onde houver uma casa religiosa e onde houver fiéis que a ela forem para ouvir a Palavra. “Cremos que é preciso conscientizar a sociedade das rotas e das formas de tráfico. Ele está muito perto da gente, mas a gente não enxerga. Os religiosos, religiosas e leigos que trabalham por esse ideal buscam o preceito bíblico de que somos iguais e temos de buscar a liberdade dos filhos de Deus”, completa irmã Guadalupe.

 

Anonimato e medo

O formato de uma boa reportagem exige o contato com uma personagem, uma pessoa ou grupo que retrate o contexto explorado no tema. O medo e o risco, no caso do tráfico de pessoas, inviabilizou essa possibilidade. Irmã Guadalupe explica com mais detalhe: "Temos conhecimento de pessoas que foram aliciadas pelo tráfico em países europeus. Saíram do Brasil convidadas para trabalhar como modelo e, ao chegarem lá, tiveram seus passaportes retidos e passaram a ser exploradas sexualmente. Crianças que foram encontradas mortas e seus corpos ocos, pois os órgãos haviam sido extraídos. Sumiço de crianças e adultos muitas vezes está ligado ao tráfico de órgãos. Os crimes ocorrem nos contextos de pobreza e miséria e as denúncias, quando ocorrem, raramente têm levado a algum resultado", lamenta.

Para a irmã salesiana, a conscientização e a prevenção devem ser feitas a partir das crianças, um trabalho minucioso. "Esses problemas surgem por causa da exclusão social, que na maioria das vezes vem junto com a falta de conhecimento. O antídoto é a informação, pois dá a possibilidade de evitar o risco", considera.

 

Definição

Caracteriza-se tráfico quando a vítima é enganada e retirada de seu ambiente, de sua cidade ou país e fica com a mobilidade reduzida, sem liberdade de sair da condição de exploração. Os fins versam sobre atividades sexuais, laborais ou do confinamento para remoção de órgãos ou tecidos, assumindo contornos de crueldade inimagináveis. É classificado de crime organizado.

Os aliciadores, homens e mulheres, são, na maioria das vezes, pessoas que fazem parte do círculo de amizades da vítima ou de membros da família. São pessoas com as quais as vítimas têm laços afetivos. Normalmente apresentam bom nível de escolaridade, são sedutores e têm alto poder de convencimento. Alguns são empresários que trabalham ou se dizem proprietários de casas de show, bares, falsas agências de encontros, matrimônios e modelos. As propostas de emprego que fazem geram na vítima perspectivas de futuro, de melhoria da qualidade de vida. Essas características também contribuem para os baixos índices de denúncia e de condenações, pois o criminoso, em geral, conhece suas vítimas de perto.

 

Combate complexo

O enfrentamento ao crime do Tráfico Humano vem exigindo a cooperação entre os países, em áreas múltiplas, como criminal, jurídica, tecnológica, econômica e de meios de comunicação; mas a Igreja, no mundo todo, e muitas ONGs têm ocupado um papel importante no apoio às vítimas.

Foi só em 2006 que o Ministério Público e a Polícia Federal começaram a agir contra essas quadrilhas. O primeiro passo para isso foi um amplo levantamento sobre a forma de atuar dos traficantes e as rotas que eles estabelecem. As ações dos criminosos estão concentradas em pelo menos 520 municípios. Nessas cidades, pessoas são aliciadas e levadas a hotéis, pequenos abrigos ou pontos de prostituição até receberem passaportes, não raro, falsos. Rotas de saída passam pelo Amazonas, Bahia, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Roraima e São Paulo. Segundo o MP, além de Portugal, os destinos mais frequentes são Espanha, Itália e Venezuela.

No total, o número de pessoas levadas para o Exterior por traficantes já soma 70 mil, segundo as estimativas governamentais. “Temos conhecimento de 131 rotas internacionais e 110 domésticas. Em 2012, no Brasil, foram libertados quase 6 mil escravos e no ranking dos 10 países que mais traficam pessoas, o nome do Brasil aparece estampado, com a China, Colômbia, Filipinas, Rússia e boa parte dos países do Leste europeu”, explicao sociólogo Ailton Santos, professor universitário e militante de Direitos Humanos. Santos foi eleito delegado da Conferência Nacional de Imigração em 2013.

Dalila Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude (Asbrad), entidade que, desde 1997, atua no apoio a vítimas da violência e do tráfico de seres humanos, considera que uma CF que aborde o tema representará, antes de mais nada, mais pessoas engajadas em todo o país. “O Brasil inteiro, pastorais, padres, catequistas, seminaristas, leigos, todos estejam trabalhando num mesmo enfrentamento e que não termine aqui. Que essa Campanha seja o passo inicial. A Copa do Mundo e a Olimpíada vão passar, mas temos de continuar com o enfrentamento ao problema", conclui.

Lido 513 vezes Modificado em Quinta, 06 Março 2014 20:06