Segunda, 13 Junho 2016 14:20

Edilene Batista de Andrade: Sonhos que se tornam realidade

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Foto: Salesiano Salvador Foto: Salesiano Salvador

Edilene Batista de Andrade, 50, é uma mulher batalhadora, que superou os muitos desafios que a vida lhe colocou com estudo, perseverança e amor. O sucesso que alcançou pode ser constatado nos Jogos Olímpicos Rio 2016: a salesiana cooperadora e professora de Educação Física no Colégio Salesiano do Salvador (Nazaré) representará o estado da Bahia como membro oficial da equipe de arbitragem do vôlei de praia. A história de Edilene poderia ser resumida assim. Mas o seu testemunho de vida e seu exemplo vão muito além.

Olimpíadas

No Colégio Salesiano do Salvador, Edilene é professora de Educação Física na Educação Infantil, dá aulas de natação como curso extracurricular (para alunos de todas as idades) e também aulas de hidroginástica para a comunidade. Na rede pública de ensino, ela atua com adolescentes. Concilia essas atividades com o trabalho de arbitragem, tanto no vôlei de praia como no vôlei de quadra. Nas Olimpíadas, ela será apontadora (árbitra de mesa), responsável pelo registro de pontos e faltas em competições do vôlei de praia. E não esconde sua emoção em participar dos Jogos: “É como se eu estivesse dentro da história viva! A gente sempre assiste os Jogos Olímpicos pela TV, e agora vou participar do maior evento esportivo do planeta. Percebo também o orgulho da nossa escola, nossa comunidade, nosso estado. É muita responsabilidade, com muitos valores em volta”, afirma.

A escolha para a equipe de arbitragem foi fruto da atuação de Edilene em 32 anos como árbitra em competições, inclusive internacionais. Para os Jogos, ela passou por diversos testes e pelo treinamento para utilizar uma nova tecnologia, desenvolvida especialmente para as Olimpíadas do Rio. Mas quando seus alunos e colegas perguntam como será participar desse evento, ela ressalta: “Vocês sabem que eu estarei lá, mas não vou aparecer. São os atletas que têm de ser vistos”.

 

Educadora salesiana

A postura na equipe de arbitragem tem a ver com a atuação como educadora: estar presente e dar segurança para que os educandos possam desenvolver todo o seu potencial. “Dom Bosco nos ensina a trabalhar com os jovens, e ele utilizou muito os jogos, os esportes para isso. Vejo os esportes sempre com essa finalidade de educação, de passar uma filosofia de superação, de disciplina, de respeito pelo outro, sendo vencedor ou perdedor”, explica ela. “Tenho 25 anos na Família Salesiana, e sinto que é minha família, que vivo e transfiro os valores salesianos em todas as aulas. Minha identidade é Edilene, educadora salesiana”, completa.

Uma identidade tão forte que teve de ser aprofundada. Em 2004, Edilene iniciou os estudos para ser salesiana cooperadora, e fez o compromisso em 2011. “Sou apaixonada pelos ensinamentos de Dom Bosco. Também trabalho na rede pública, com jovens em situação de vulnerabilidade social, e levo muito da educação salesiana para lá. Falo que a transformação está na mão deles e mostro que tem alguém que acredita neles”, considera.

Na escola pública, Edilene dá aulas de educação física, tecnologia e cidadania: tudo que estiver ao alcance para que os alunos possam desenvolver um projeto de vida, de mudança social. Uma atuação solidária que passou também para o filho, Lucas Moura, ex-aluno salesiano: “Ele tem 19 anos, estuda psicologia e trabalha como voluntário em duas ONGs. Leva na vida o que aprendeu no Colégio Salesiano”.

 

Superação

A identidade de Edilene com a proposta pedagógica de Dom Bosco não é apenas teórica. “Falo para meus alunos que vim de uma família muito pobre e tudo que consegui na vida foi por acreditar que estudando poderia mudar minha realidade. Se eu consegui chegar a uma universidade particular e superar obstáculos, eles também são capazes. Precisam acreditar em si mesmos”, descreve.

Uma entre 12 filhos de pai e mãe analfabetos, Edilene teve a violência e a pobreza em sua porta, mas não a abriu. Percebeu desde cedo que a chance de mudar sua realidade estava nos estudos, e agarrou essa oportunidade. Lia à noite, à luz de velas, para não acordar a família. Economizava o que podia para pagar a passagem até uma escola melhor, distante de sua casa na periferia.

Quando o pai morreu e a mãe teve de vender salgados e doces para sustentar a família, Edilene se viu à beira de parar os estudos, mas não abandonou seus sonhos. Acordava às 4h para ajudar a mãe no preparo dos quitutes e levava uma parte para vender aos colegas de curso. “Expliquei a eles que o dinheiro era para pagar a passagem e comprar os livros. Eles foram solidários, sem nem saber a importância disso”, relembra emocionada. No terceiro ano do curso técnico em Educação Física, falou com um professor que precisava trabalhar. Ele a levou para o clube esportivo em que atuava, e assim Edilene iniciou sua vida profissional.

Prestou vestibular e passou em uma universidade paga. Não teve dúvidas: explicou a situação ao dono do clube. Estudava de manhã e trabalhava à tarde: “Ele me deu um período para estudar, sem reduzir o salário! Tive muitas pessoas que acreditaram em mim, e hoje procuro ser esse porto seguro para meus alunos”, diz Edilene. Nos finais de semana, ela já atuava na arbitragem de jogos. Depois de formada, entrou no Colégio Salesiano do Salvador, seu primeiro emprego como educadora.

 

Pedagogia do amor

Na Rede Salesiana, Edilene trabalha com crianças que vêm de famílias mais estruturadas. Mas sua prática educacional continua firmemente baseada nos princípios de Dom Bosco. “O que passo para os pequenos é o amor e a escutatória. Nas aulas de natação, muitos vêm com medo de entrar na água. Eu mostro que estou ali para apoiá-los, para encorajá-los a desenvolver suas habilidades”. Na Educação Infantil, as crianças de 2 e 3 anos entram em contato com uma nova experiência na escola. “É quando eles começam a desenvolver a socialização e os jogos na aula de Educação Física ajudam muito nesse processo, de aprenderem a não bater, a respeitar o colega”.

Nas aulas de hidroginástica, grande parte dos alunos é de idosos. Para eles Edilene também tem palavras e práticas encorajadoras, mostrando que são importantes para a comunidade e incentivando hábitos saudáveis. E é nas festas que ela demonstra todo o seu entusiasmo de educadora. “É a alegria de ser salesiana”, resume. “A tristeza tem hora, não precisa te acompanhar sempre. Todo mundo pode ser feliz com as ferramentas que tem. Por isso estou sempre com um sorriso, no rosto e na alma”.

A matéria poderia terminar aqui, mas já no final da entrevista Edilene conta que está estudando Inglês. Buscou um curso online e adaptou seus horários para realizar as tarefas e enfrentar mais um desafio. “É a língua oficial nos Jogos Olímpicos, e eu preciso entender e ser entendida. Não dá para parar de estudar, não é?”. É verdade. Não dá para parar de estudar, nem de sonhar e de tornar esses sonhos realidade. Porque Edilene é uma mulher batalhadora, que superou os muitos desafios que a vida lhe colocou. Mas o seu testemunho e seu exemplo vão muito além.

 

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Ana Cosenza

Editora do Boletim Salesiano - Brasil

e-mail: imprensabs@gmail.com

 

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