Quarta, 12 Setembro 2018 14:26

Economia para a vida: reflexões de um educador

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Economia para a vida: reflexões de um educador Foto: iStock.com

É importante que pensemos nos bens indispensáveis à vida como direito e não como possibilidade de alguns ou de muitos. Os bens que existem no mundo são para todos.

 

Toda pessoa que nasce é um filho querido de Deus. “Antes de formar-te no ventre de tua mãe, eu te conheci; antes que tu nascesses, eu te conhecia e te consagrei, para ser meu profeta entre as nações” (Jr 1,5). Não importa como nasceu a criança, importa que ela está viva e, se está viva, é pensada e amada por Deus. Ninguém nasce por acaso. Cada criança que nasce é um dom, uma graça de Deus. Criança não é dívida, é dádiva, nos diz o Papa Francisco.

 

Os bens são para todos

Se assim é, ela tem direito a tudo o que é necessário para viver bem, com qualidade e dignidade. Tudo o que existe no mundo é para todos os seres humanos. É importante que pensemos nos bens indispensáveis à vida como direito e não como possibilidade de alguns ou de muitos. Os bens que existem no mundo são para todos. Como se faz esta distribuição é responsabilidade das pessoas, dos governos, das estruturas da sociedade.

 

Não se pode negar a ninguém os bens necessários para a sobrevivência: casa, terra, trabalho, comida, vestuário... Estes bens não podem ser apropriados por alguns que se arvoram em juízes, dando-os ou negando-os de acordo com seu procedimento moral. Os pobres têm que ser atendidos não porque merecem, mas porque precisam... Assim foi o procedimento de Jesus. A necessidade é o critério, e não o merecimento.

 

A história da humanidade sempre foi uma luta ferrenha e sacrificada para entender o mundo criado por Deus. Não foi fácil. Na Antiguidade havia os escravos. Na Idade Média, os trabalhadores da gleba. Na modernidade, os operários das fábricas e os agricultores nos campos. A descoberta da dinâmica causa-efeito possibilita à humanidade ver como o mundo funciona e assumi-lo em suas mãos, produzindo mais e melhor.

 

Isto, porém, é uma faca de dois gumes. Por um lado, temos um progresso fantástico. Por outro, uma exploração extraordinária e uma exclusão imensa. O que os escravos, os trabalhadores da gleba, os operários das fábricas, os agricultores no campo faziam e fazem... a máquina continua fazendo. Só que a mentalidade escravagista não acaba nunca. O dono das máquinas arvora-se no direito de apropriar-se do que ela lhe possibilita apenas em benefício próprio.

 

Bem-vindas as máquinas...

Um grande industrial dizia: “Vocês afirmam que nós exploramos os trabalhadores. Isto não é verdade. Nós nem precisamos deles. Nossas máquinas, nossos computadores, nossa automação, nossos robôs fazem melhor que eles, com mais eficiência e sem reclamar!” Isso é verdade. No entanto, para que a máquina existisse, os computadores entrassem em cena, a automação viesse, os robôs funcionassem, foram (e são) necessários milênios de escravidão, de trabalhadores das glebas, de operários das indústrias, de agricultores nos campos... Sem todo esse suporte jamais alcançaríamos o progresso científico extraordinário de hoje. As pessoas sempre lutaram para trabalhar menos, para se cansar menos, para ter condições dignas de trabalho. Agora que se começa a conseguir isso, as máquinas produzem desempregados e massa sobrante.

 

Todos e todas têm direito aos bens necessários para uma vida digna. Ninguém pode ser excluído do banquete da vida. “Cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as desigualdades” (Bento XVI). Não é suficiente progredir do ponto de vista econômico e tecnológico. É preciso progredir também na dimensão da justiça e da ética.

 

Nos EUA, em 1800, mais de 90% da população trabalhava na agricultura; em 1900 eram 42%; hoje são apenas 2% os norte-americanos trabalhando no campo. Para onde foram essas pessoas? Foram se reinventando. Só que o tempo caminhava muito lentamente. Hoje também acontece isto, só que as pessoas precisam se reinventar com uma rapidez impressionante. Estamos iniciando a quarta revolução industrial com os sistemas ciberfísicos. A consequência é o desemprego em massa e a demora em reinventar novos postos de trabalho.

 

O problema é que continuamos com a mentalidade escravagista, empregadores e empregados, patrões e operários. As máquinas foram inventadas para substituir a pessoa nos trabalhos mais difíceis, repetitivos e cansativos. À pessoa está reservado o trabalho com os humanos: lazer, cuidados com a saúde, educação, cultura, artes; enfim, os trabalhos mais humanizados. Como continuamos com a mentalidade escravagista, quem é dono dos meios de produção pensa que pode se apoderar do que toda a humanidade ajudou a construir. É preciso repensar uma nova forma de distribuição de renda. Só para dar um exemplo, há quem pense que se deva tributar os robôs porque eles estão substituindo os humanos.

 

O marginalizado e sua marginalização

Infelizmente há gente que transforma o desempregado em vagabundo, colocando a culpa de sua marginalização nele mesmo. Até certo ponto pode ser verdade. É preciso nos conscientizar, porém, de que há vagabundos em todas as classes sociais. Há muito rico que é verdadeiro parasita social, vivendo exclusivamente do trabalho dos outros, só como rentista. A maioria das pessoas, porém, é muito trabalhadora e empenhada. Independentemente de seu procedimento, todos têm direito aos bens necessários para viver. Ao Estado compete lutar para que todos tenham esses bens. Esta é sua função principal e intransferível. Largar os cidadãos no mercado é como se os largassem no meio de uma cova de leões. O Estado pode abrir mão de regular a distribuição de outros bens, mas não o cuidado dos bens necessários para a sobrevivência das pessoas com vida digna.

 

Se não há para todos, então é preciso que todos vivam uma vida mais simples, sóbria e austera. Assim, certamente, não faltará bem para ninguém. Se todos nascemos é porque há bens para todos. Caso contrário, Deus não seria pai/mãe. O problema é a fraternidade. “A ‘cidade do homem’ não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e, sobretudo, por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão” (Bento XVI). Bem-vindas as máquinas. Maldita a mentalidade escravagista. Bem-vinda a automação. Malditas a exclusão e a acumulação.

 

Concluindo

No século XIX, no norte da Itália, tendo como centro a cidade de Turim, surgiu forte a revolução industrial, um século depois da Inglaterra. Encontrou as instituições despreparadas para enfrentá-la. Aí está Dom Bosco. Ele intuiu que era preciso preparar os jovens para esse novo mundo, para o emprego nas indústrias. Colocou mãos à obra e fundou escolas profissionais. Não só, criou nos jovens a dimensão da cidadania. É preciso trabalhar, sim, mas também defendendo direitos importantes para viver com dignidade e ser respeitado como cidadão. Este foi um dos grandes segredos da influência de Dom Bosco na vida civil, sobretudo através da educação.

 

Este é o desafio aos educadores e evangelizadores dos jovens a partir de Dom Bosco: descobrir novas formas para enfrentar esse novo mundo tão cambiante.

 

Padre Marcos Sandrini, SDB, é coordenador de Assuntos Comunitários da Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, RS.

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Marcos Sandrini

Diretor da Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, RS.  

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