Terça, 21 Agosto 2018 16:55

Mães e pais, filhos e filhas do coração

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Mães e pais, filhos e filhas do coração foto: iStock.com

Existem no Brasil 49.939 crianças e adolescentes com menos de dezoito anos que moram em instituições de acolhimento. A maioria deles está nestas instituições, por maus tratos, abandono afetivo, drogadição dos pais ou de algum familiar.

 

Hoje temos consciência de que existem muitos tipos de família. Uma delas é a família com filhos adotivos. Não são filhos e pais biológicos, mas são filhos e pais gerados no coração. A adoção é uma realidade bastante presente em nossa sociedade. Há muita carência em crianças e adolescentes em busca de uma adoção. Por outro lado, há muita generosidade e desprendimento em quem adota.

 

Existem no Brasil atualmente 49.939 crianças e adolescentes com menos de 18 anos que moram em instituições de acolhimento. A maioria deles está nessas instituições por maus tratos, abandono afetivo, drogadição dos pais ou de algum familiar. Famílias que não tiveram cuidados reproduzindo o abandono. No Rio Grande do Sul existem 4.831 crianças e adolescentes em acolhimento. Em São Paulo, maior estado do Brasil, são 13.438. A maioria das pessoas não tem noção e nem ideia desta realidade. Eles são os invisíveis da sociedade.

 

Apressar os tempos

Tanto o Poder Judiciário, quanto diversas ONGs, se preocupam com esta situação. Seu maior empenho é encontrar pessoas que se disponibilizem para acolhê-los como filhos e filhas do coração. Junto com a adoção é preciso desmistificar o mito de que o filho adotivo será problemático, trará marcas no seu DNA que o fará diferente.

 

Mas há diversos entraves para que a adoção aconteça. Um deles é a lentidão da justiça, que muito privilegia a família biológica que não deu conta dos cuidados necessários da maternagem. Por um lado, há que se entender que possa haver interesses escusos com esses “filhos de ninguém”. Por outro, poderia haver uma agilização dos processos para que essas crianças e esses adolescentes encontrassem sua família escolhida por Deus desde toda a eternidade. No RS, das 4.831 crianças em acolhimento, 1.238 estão em Porto Alegre, entre as quais 608 são adolescentes entre 14 e 17 anos. Em 2017 foram adotadas 11 crianças através do CNA - Cadastro Nacional da Adoção. Convenhamos, isto é pouco num universo muito maior. Há que se notar que no mesmo ano de 2017 foram adotadas 60 crianças pelo processo de busca ativa, de outros estados da federação.

 

O tempo de espera pode significar perda de oportunidade para adoção, uma vez que existem mais famílias para adotar do que crianças e adolescentes para serem adotados. Isso explica também o porquê da maioria das pessoas em instituições de acolhimento estar na faixa entre 14 e 17 anos. Há, inclusive, algumas experiências de substituição destas instituições por famílias acolhedoras. No RS, uma iniciativa do Juízo da Infância e Juventude da Comarca de Santo Angelo organizou o programa de guarda compartilhada, batizado de Família Acolhedora, que prepara famílias da comunidade para receber crianças e adolescentes que necessitam de proteção, sendo uma alternativa aos abrigos. Famílias inscritas e selecionadas recebem uma criança e, no caso de irmãos, mais de uma. A família acolhedora fará as vezes de um modelo de lar ideal que hoje não existe no acolhimento. A diferença está no tratamento individualizado, dado às crianças e aos adolescentes, que terão o carinho, o amparo e o afeto de uma família de verdade.

 

Apoiar quem realmente se empenha

Além de um trabalho assistencial de apoio para suprir necessidades materiais das instituições de acolhimento, há necessidade de apoiar o trabalho de conscientização realizado através de ONGs, que existem espalhadas em diversas cidades pelo Brasil. Estas ONGs são muito importantes para fiscalizar o trabalho feito pelo Poder Judiciário, apontar caminhos de superação das dificuldades e, ao mesmo tempo, trabalhar efetivamente para que as adoções sejam eficazes.

 

Em Porto Alegre existe o Instituto Amigos de Lucas que prepara casais que desejam adotar filhos do coração. O resultado é que até hoje nenhuma criança das centenas de adotadas foi devolvida para as instituições de acolhimento. Outro trabalho realizado pelo Instituto Amigos de Lucas é “convencer” os casais a se abrirem para outras opções de adoção, mostrar as crianças reais que estão no acolhimento. Há casais que acolhem filhos e filhas com mais idade, mais de um irmão, adolescentes e também portadores de necessidades especiais. A generosidade é imensa.

 

O Instituto Salesiano de Proteção a Adolescentes (INSAPROA), ligado à Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, tem uma afinidade muito grande com o Instituto Amigos de Lucas. Atualmente estão realizando trabalhos nas instituições de acolhimento no sentido de preparar os adolescentes que aí estão para sua saída ao completarem 18 anos. São duas as iniciativas. A primeira é ajudar a cuidar da escolarização e profissionalização desses adolescentes. Infelizmente, tira-se o poder familiar e o mais das vezes não se cuida nem da escolarização e nem da profissionalização. A segunda, é preparar uma estrutura adequada para dar atendimento aos que precisam deixar as estruturas de acolhimento e enfrentar a vida fora delas.

 

Tenho escutado testemunhos de pessoas que, ao se referirem aos pais biológicos das crianças e dos adolescentes, o fazem com muito carinho. Foram eles, para além das dificuldades, fraquezas e maldades, que geraram e doaram para adoção os filhos do coração que eles acolheram. É preciso criar uma nova cultura em nossa sociedade. Filhos não são para satisfazer os desejos dos pais, mas para serem amados e respeitados numa dimensão de comunhão e de partilha. Silenciosamente, a multidão dos pais e mães adotivos vai distribuindo seu amor e sua generosidade. Há famílias que ainda escondem a procedência dos seus filhos. O que se escuta é o contrário. Filhos e filhas de famílias adotivas são imensamente gratos e a verdade, a sinceridade e a transparência só fazem bem para todos. Surpresas e possíveis decepções posteriores não compensam a alegria de se saber amado para além da geração biológica.

 

Na missa da Festa de São João Batista a primeira leitura é do livro do Profeta Isaías 49, 1-6. Nela há uma linha maravilhosa – “E agora diz-me o Senhor – ele que me preparou desde o nascimento para ser seu Servo” (Is 49,5). Para quem acredita na vida e no Senhor da Vida nada é por acaso. Tudo são surpresas de Deus. Ninguém é adotado por acaso. Este não existe, o que existe é o amor desde toda a eternidade de um Deus que nos adotou como filhas e filhos queridos.

 

Há espaços para a ação

É interessante buscar no Cadastro Nacional de Adoção informações sobre a situação das adoções no país para ter uma visão de conjunto. Ao mesmo tempo, é importante conhecer a situação das crianças e adolescentes abrigados em sua cidade. O grande objetivo seria um empenho de toda a sociedade civil e organizada para trazer para a visibilidade esses pequeninos, para que não passem toda a sua infância e adolescência em instituições de acolhimento. O que mais eles querem e anseiam é serem acolhidos por uma família que lhes dê amparo, carinho, proteção, educação, porque todos têm direito e necessitam disso.

 

Além do mais, toda pessoa acolhida deverá necessariamente sair da instituição de acolhimento ao completar 18 anos. Se não conseguiu uma família para adotá-la, como poderá encontrar de uma hora para outra uma acolhida, uma vez que foi destituída do poder familiar? Se conseguirmos fazer algo neste sentido estaremos criando uma sociedade mais pacificada e feliz. Possíveis problemas de segurança, de contravenção e de conflito com a lei não se resolvem com medidas punitivas, mas com educação. O importante é quebrar o ciclo que se instaura na sociedade. Quem só conhece família desajustada e sem o mínimo de condições emocionais, psicológicas e econômicas para educar não consegue ver que é possível também uma família com uma vida simples, sóbria e austera, mas cheia de generosidade, acolhida e amor. Isto se aprende também.

 

Conclusão

Dom Bosco, no seu tempo, acolheu em sua casa órfãos de guerra e de pais mortos de morte natural, algo tão frequente naquele tempo. Acolheu muitos migrantes que vinham dos campos e das montanhas buscar uma vida melhor na cidade. Por ocasião de sua morte o Oratório de Valdocco tinha cerca de 900 deles. É por isso, por tirar da invisibilidade meninos que apenas queriam ser amados e acolhidos, que nós nos lembramos desse grande santo ainda hoje. Falar de Dom Bosco é falar de acolhida a quem não conta e não tem como buscar sozinho a solução para seus problemas, dentre os quais o desejo de ser amado e amar.

 

Lido 1052 vezes Modificado em Terça, 21 Agosto 2018 17:18
Marcos Sandrini

Diretor da Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, RS.  

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