Segunda, 26 Março 2018 12:05

Os salesianos e o acompanhamento espiritual

Escrito por  Leandro Francisco da Silva, SDB
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Representação teatral do tema da Estreia 2018, encenada durante os Dias de Espiritualidade da Família Salesiana (DEFS) Representação teatral do tema da Estreia 2018, encenada durante os Dias de Espiritualidade da Família Salesiana (DEFS) Foto: ANS

Ao longo de todo este ano de 2018, a Igreja inteira estará voltada, a partir do tema do acompanhamento e do discernimento vocacional, aos jovens, suas alegrias e tristezas, suas dores e conquistas.

 

Aos jovens será dedicado o XV Sínodo dos Bispos, a ser realizado em outubro deste ano, em Roma. Com o sínodo, “a Igreja decidiu interrogar-se sobre o modo de acompanhar os jovens a reconhecer e a acolher o chamado ao amor e à vida em plenitude, e também pedir aos próprios jovens que a ajudem a identificar as modalidades mais eficazes para anunciar a Boa Notícia”.

 

Na esteira deste acontecimento, a Congregação Salesiana coloca como tema de sua Estreia o acompanhamento espiritual dos jovens. Intitulada “Cultivemos a arte de escutar e acompanhar”, a Estreia de 2018 foi escrita pelo padre Ángel Fernández Artime, 10º sucessor de Dom Bosco, e tem por objetivo exortar todos os grupos da Família Salesiana para a novidade do Evangelho presente na vida e na história de cada jovem.

 

É na realidade peculiar de cada um que aprendemos a conhecer Deus. Neste sentido, somente quando adentramos na vida de cada jovem é que podemos enxergar o rosto jovem de Deus. Essa atitude de escuta e de reconhecimento de Deus na vida do outro não é um dom adquirido de uma vez. Exige tempo, dedicação e gratuidade.

 

Jesus e a Samaritana

O texto escolhido para ilustrar a Estreia traz dois personagens principais: Jesus e a mulher Samaritana (anônima). A iniciativa de sair de si e de encontrar-se com a mulher é de Jesus. Ele tem sede! O fato de Jesus ter sede contrapõe-se com aquele mesmo personagem que transformou a água em vinho, narrado no capitulo 2 de João, e constitui um paradoxo de difícil entendimento. Deus, em Jesus, revela-se ele mesmo um paradoxo: conversa com a Samaritana, cura em dia de sábado, convida os pecadores para assentarem à mesa com Ele, toca o leproso... Jesus faz-se sedento para nos dizer que Ele mesmo é a água viva que sacia nossa sede e nos restitui a alegria. Como em Caná (Jo 2,1-12), Jesus se apresenta como aquele de quem brota a bebida boa. Sua presença transforma vidas, nos dá alegria.

 

“Acompanhar os jovens exige sair dos próprios esquemas pré-confeccionados”, afirma o Papa Francisco. A Samaritana é uma mulher, como tantas outras, excluída, sem voz e nem vez. Além de mulher, é Samaritana, isto é, pertence a uma religião diametralmente oposta à dos judeus. Os samaritanos são colocados à margem nas grandes cidades e aldeias. Talvez por isso – por ter preferência pelos excluídos e vulneráveis –Jesus coloca-se ao lado daquela mulher, torna-se um “transgressor da lei”. Sua missão consiste exatamente em amar a todos, sem distinção.

 

Ambos, Jesus e a Samaritana, estão no poço, trazidos por uma sede insaciável. Mesmo àquela de que se refere Jesus. Não somos, uma vez abastecidos de Deus, saciados de uma vez por todas! É preciso um constante retorno à fonte. Da qual, uma vez abastecidos, somos manancial, canal do qual Ele se serve para chegar a outros. Nos lembra ainda o Papa Francisco: “Para levar os jovens a uma escolha madura é necessário um caminho, que passa às vezes também através de estradas imprevisíveis e distantes dos locais habituais das comunidades eclesiais”.

 

Do que temos sede?

A Samaritana, como já era de costume, ia até o poço buscar água para matar sua sede. E nós, do que temos sede? Onde temos saciado a nossa sede? Mais do que água, a Samaritana encontrou-se consigo mesma, com seu interior. É preciso encontrar dentro de nós aquele que nos enche de alegria e de sentido. A pergunta de Jesus a André e ao outro discípulo – O que buscais? (Jo 1,38) – é também direcionada a nós, seus discípulos de hoje.

 

É uma pergunta que deve nos inquietar. Tentar respondê-la é mergulhar nas águas da própria vida. Caso contrário, nossa resposta será sempre superficial. Corre-se o risco de não nos revelar, de não falar de nós, mas passar ao largo da nossa história. Fica-se no externo (bens, títulos, tarefas, fama etc.), na aparente ilusão do ter. É uma atitude de apego, de busca pela segurança que nos acomoda; nos paralisa e nos torna indiferentes à dor do outro. Não, entre os jovens não deve ser assim! Os jovens são sal da terra e luz do mundo; o fermento que age e faz crescer uma sociedade mais justa e fraterna. Nos diz o Papa Francisco: “A fé não é um refúgio para gente sem coragem”.

 

Neste caminho de escuta da própria vida, nós, salesianos e toda Família Salesiana, somos chamados a ser os amigos e guias dos jovens. Acompanhá-los em seu itinerário vocacional constitui o núcleo central e a força motriz de toda nossa ação pastoral. Que Maria, mulher da escuta atenta e operosa, nos ajude a ouvir e confiar sempre mais no seu Filho Jesus, Mestre Divino. Que Ela se adiante a nós e nos abra o caminho, conduzindo-nos até Cristo.

 

Leandro Francisco da Silva, SDB, é salesiano, pós-noviço da Inspetoria Salesiana do Nordeste. Reside atualmente em Lorena, SP. 
Lido 1561 vezes Modificado em Segunda, 26 Março 2018 13:35

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