Sexta, 26 Janeiro 2018 12:40

O primeiro anúncio na cidade

Escrito por  Ir. Teresa Cristina Pisani Domiciano, FMA
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O primeiro anúncio na cidade iStock.com

Mais que fazer coisas, o primeiro anúncio aponta para o “ser”, aponta-nos um estilo de vida, um testemunho autêntico de abertura, de acolhida e de esperança.

 

Primeiro anúncio não significa falar em ordem cronológica, mas da qualidade do anúncio. É “primeiro” não porque o ouvimos pela primeira vez; trata-se daquele momento ímpar, acendendo uma faísca em quem escuta: uma descoberta, um interesse pela pessoa de Jesus. É necessário, porém, um ambiente que suscite o desejo de conhecer Jesus. Portanto, o primeiro anúncio não tem a intenção de explicitar quem é Jesus, mas, sim, de conduzir o outro ao encontro com Jesus. Provocar o fascínio por sua pessoa e sua mensagem.

Falar de primeiro anúncio na cidade é ter presente algumas questões como: mobilidade humana, migrações, secularismo, mundo digital, anonimato, exclusão, individualismo e outros fenômenos que caracterizam as grandes cidades hoje e interpelam a nossa ação pastoral. A cidade não é ateia, lá Deus está. Nossa missão é revelar o rosto de Deus que já está na cidade.

Como afirma o Papa Francisco, no documento A alegria do Evangelho: “Na cidade, o elemento religioso é mediado por diferentes estilos de vida, por costumes ligados a um sentido do tempo, do território e das relações que difere do estilo das populações rurais. Na vidacotidiana, muitas vezes os citadinos lutam para sobreviver e, nesta luta, esconde-se um sentido profundo da existência que habitualmente comporta também um profundo sentido religioso” (EG 72).

Portanto, é preciso um “olhar contemplativo, isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças. A presença de Deus acompanha a busca sincera que indivíduos e grupos efetuam para encontrar apoio e sentido para a sua vida. Ele vive entre os cidadãos promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça. Esta presença não precisa ser criada, mas descoberta, desvendada. Deus não Se esconde de quantos O buscam com coração sincero, ainda que o façam tateando, de maneira imprecisa e incerta” (EG 71).

 

Desafios e oportunidades

Muitos são os desafios que clamama nós cristãos a dar uma resposta concreta se desejamos ser evangelizadores de fato. É importante pensar também que para cada desafio, Deus nos aponta oportunidades. Podemos elencar algumas no contexto de evangelização nas cidades.

Nas cidades encontramos muitas vezes pessoas isoladas e infelizes, vivendo no anonimato. Nosso desafio é tornar as cidades locais onde as pessoas sejam abertas ao futuro e tenham esperança. Uma oportunidade poderia ser a promoção da pastoral da escuta, que seja capaz de compreender o outro, acolher a sua diversidade, o seu ponto de vista: “Da escuta sincera nasce o diálogo que não é um espaço para convencer o outro, mas um modo para construir uma relação nova através da força do Espírito”. Também a criação de espaços de acolhida e convivências nos grandes centros urbanos, gerando relações de fraternidade, pode ajudar avencer o isolamento e o individualismo.

A escuta é a condição para o primeiro anúncio, para o encontro com Jesus. O encontro é kairós, é o “momento no qual Deus se revela na sua multiplicidade. O diferente, o estrangeiro, o outro,são momento privilegiado onde Deus se manifesta no ser humano”. Promover a cultura do encontro, como nos pede o Papa Francisco, é promover a dimensão comunitária da fé.

Outro desafio é o consumismo exagerado a que nos convidam os grandes centros urbanos e que, muitas vezes, revela o vazio interior que precisa ser preenchido. O “sempre querer mais e mais”, a troca desenfreada e o descartável revelam o exagero do possuir, o que também pode ser levado ao âmbito das relações pessoais. Hoje se pode “deletar” facilmente outras pessoas de nosso convívio. A oportunidade que encontramos seria refletirsobre as necessidades reais e os valores necessários, promovendo sempre o consumo consciente. “O consumidor consciente, já no ato da compra, deve decidir o que consumir, porque consumir, como consumir e de quem consumir. Ele deve buscar o equilíbrio entre a satisfação pessoal e a sustentabilidade global. Deve refletir a respeito de seus atos de consumo e como eles irão repercutir não só sobre si, mas em suas relações sociais, na economia e na natureza”.

Nosso contexto, hoje transformado pelas tecnologias digitais, requer uma nova postura. O grito que ecoa hoje dentro e fora de nossas instituições é uníssono: precisamos de educomunicadores de fé e da fé, ou seja, que tenham a capacidade de viver e anunciar a fé em todos os espaços, especialmente nos chamados “não-lugares”, que se apresentam no ambiente digital. Esse novo continente recria a maneira como nos relacionamos uns com os outros, e devemos torná-lo possível de humanização e fortalecimento de laços seguros de amizade.

Atualmente, 52% da população vive nas cidades; em 2050 serão cerca de 70%. Os cristãos são chamados a ser “sal e luz” em um contexto que necessita de redenção.Não é por acaso que a Igreja no país lança o Documento nº 105 sobre os cristãos leigos e assume 2018 como o Ano do Laicato. A missão de todos nós, cristãos, é fundamental porque “Jesus quer derramar nas cidades vida em abundância”.

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