Segunda, 02 Outubro 2017 15:16

Educomunicação na paróquia é possível?

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Educomunicação na paróquia é possível? Foto: Dimitri Correa

Considerando que vivemos em um mundo marcado pela comunicação, em que as novas gerações já nascem e se desenvolvem no ambiente digital, é uma necessidade educar para e na comunicação. Em um contexto de escola, isto é fácil de visualizar, mas e no contexto de paróquia, isso é possível?

 

Não só é possível, como é urgente que a Igreja volte seu olhar para a comunicação; afinal, evangelizar é comunicar. E a comunicação do Evangelho é responsabilidade de todo cristão. O mandato missionário de ir e evangelizar todos os povos está na raiz e na origem do cristianismo. Conforme a Encíclica do Papa João Paulo II, Redemptoris Missio: “O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, (...). Não é suficiente, portanto, usá-los para difundir a mensagem cristã e o Magistério da Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta ‘nova cultura’, criada pelas modernas comunicações”.

É possível constatar que a cultura da comunicação incide diretamente sobre a forma como os jovens vivem, se relacionam, organizam seu tempo, veem o mundo. Pensar a educomunicação no ambiente eclesial é a melhor forma de aproximar-se das culturas juvenis e tornar o Evangelho significativo para os jovens.

A grande meta da educomunicação é criar ecossistemas comunicativos. O ecossistema comunicativo é o ambiente educativo evangelizador, o clima de família, que permite o sentido de comunidade. Assim, cada paróquia, cada comunidade eclesial pode considerar-se um ecossistema no qual cada pessoa, ação realizada, palavra dita ou escolha são elementos constitutivos essenciais que definem aquilo que queremos comunicar. O cuidado com o ambiente, a acolhida e a capacidade de tecer um diálogo com as novas gerações são aspectos educomunicativos que precisam ser pensados.

 

Evangelizar é comunicar

Vale a pena refletir sobre como nossas paróquias são capazes de acolher essas novas culturas juvenis. Os jovens querem ser atuantes, sujeitos dos processos, embora, muitas vezes, tenham dificuldades de inserir-se nos modelos institucionalizados. Se evangelizar é comunicar, quem melhor entende de comunicação do que os próprios jovens?

O uso constante de tecnologias digitais muda a forma como os jovens leem o mundo. As palavras, muitas vezes, soam desagastadas e num mundo midiático, uma imagem vale mais que mil palavras. Aqui encontramos um primeiro desafio. O cristianismo é uma religião que se fundamenta na Palavra, então: como educar os jovens para a escuta da Palavra, tanto da Palavra de Deus, quanto dos sinais de Deus em sua própria vida? E ainda: como aproveitar toda a cultura de imagens que é característica do catolicismo?

Longe de ter uma resposta pronta, temos apenas pistas de ação que podem e devem ser consideradas. Se o mundo está saturado de palavras, precisamos ajudar os jovens a descobrirem o valor do silêncio e da escuta. Família, escola, Igreja e movimentos juvenis precisam somar forças nesse sentido. Na Igreja, podem boas iniciativas, por exemplo: reservar espaços de silêncio nas celebrações, incentivar a prática da leitura orante da Palavra, realizar retiros em que, além da escuta da Palavra, se reserve espaço para a contemplação da natureza, da própria história; momentos de silêncio pessoal, para a construção e revisão do projeto pessoal de vida, entre outras.

Deve-se considerar também que o ritmo acelerado que os jovens vivem é, muitas vezes, causa de ansiedade e vazio existencial. A Igreja tem um compromisso de ajudar os jovens a fazerem a caminhada de encontro consigo e com Deus. Isso é um trabalho longo e gradual.

 

Testemunho e experiência

Outro elemento é que, por natureza, a juventude é um tempo de questionamentos e é natural que o jovem tenha dúvidas de fé. Daí a importância do testemunho daquelas pessoas adultas que estão junto dele e, ao mesmo tempo, que estes possam dar razões de sua fé! Não basta a transmissão da doutrina católica, é preciso que o jovem faça a experiência de Deus. Passar da fé infantil, mítica, para uma fé amadurecida e encarnada, é um processo que vai além da catequese e que não pode se encerrar no momento da Crisma, mas precisa se estender através de propostas mais sólidas para uma melhor compreensão da fé.

Também, não basta ficar parado na experiência. As experiências fortes de fé precisam ajudar o jovem a inserir-se na comunidade, onde aos poucos possa ocupar um lugar de sujeito! Os jovens podem ir assumindo funções litúrgicas, trabalhos de evangelização, de comunicação do Evangelho, participação e organização de missões. Se queremos que os jovens frequentem as nossas Igrejas, não podemos querer que sejam meros expectadores. É preciso superar as diferenças intergeracionais e dar espaço para todos.

Para finalizar, precisamos lembrar que a Igreja não é um núcleo fechado. A relação com Deus se manifesta na vida em sociedade, portanto, o processo de evangelização tem que ajudar a transformar a sociedade, conforme os critérios evangélicos. Isso é coerência de vida! E quando conseguirmos chegar a este ponto aí sim, estaremos de fato evangelizando a cultura, conforme os critérios deixados por Jesus Cristo e que assumimos como discípulos missionários.

 

Irmã Márcia Koffermann, FMA, coordena a Equipe de Comunicação Social das FMA na América (ECOSAM) e compõe, juntamente com o padre João Carlos Ribeiro, a Diretoria Executiva da RSB Comunicação.
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