Quinta, 31 Agosto 2017 16:49

(In)disciplina: desafio, alerta e horizonte

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Todos falam de (in)disciplina. Refletiremos sobre esta realidade a partir de quatro elementos: aluno, escola, famílias, sociedade. São vários os desafios que eles suscitam.

 

O dicionário diz que o termo disciplina vem do latim e significa, “ação de se instruir, educação, ciência, ordem, sistema, princípios de moral”. Consiste em “ensino e educação que um discípulo recebia do mestre” ou “obediência às regras e aos superiores”. Trata-se, ainda, de “regulamento sobre a conduta dos diversos membros de uma coletividade, imposto ou aceito democraticamente, que tem por finalidade o bem-estar dos membros e o bom andamento dos trabalhos”.

Todos falam de (in)disciplina. Refletiremos sobre esta realidade a partir de quatro elementos: aluno, escola, famílias, sociedade. São vários os desafios que eles suscitam.

 

(In)disciplina a partir do Aluno

Cada coisa tem seu nome e sua realidade. É muito comum identificar falta de educação com indisciplina. Um aluno desrespeitoso e sem um mínimo de conduta em sua vida social e escolar não é indisciplinado. Ele é mal-educado. Normas mínimas de educação aprendem-se em casa e se (des)aprofundam na escola. A boa convivência manda respeitar quem fala, dialogar com os opostos, respeitar as pessoas com necessidades especiais, não fazer bulliyng, cumprimentar as pessoas, dar prioridade a quem de direito... Uma sociedade é feita com e de pessoas bem educadas. As pessoas têm que ser respeitosas umas com as outras mesmo discordando delas e se opondo a elas.

Há coisas na vida muito prazerosas. No entanto, muitas delas só são possíveis graças ao suor e sacrifício para consegui-las. Sócrates diz que em todas as ações deve-se ponderar seus resultados. Uma ação que hoje me dá prazer, mas amanhã me causará dor, não é boa. Uma ação que hoje me causa dor, mas amanhã me causará prazer, é boa. O ideal mesmo seria que todas as ações sempre fossem prazerosas, mas isto não é possível. Então, disciplina é sinônimo de trabalho sério e profundo. Não por imposição, mas por convicção.

Estudar é prazeroso, mas também é sacrificado. Adquirir o hábito da leitura é sacrificado. Viver o hábito da leitura é prazeroso. Leio porque adquiro conhecimentos e me delicio com o ato de ler. Isto não tem preço... Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, dizia o poeta Fernando Pessoa. Escutar, falar, cantar, jogar, conversar, dialogar, ler, divertir-se faz parte da vida. Tudo com a devida dosagem e no seu tempo.

 

(In)disciplina a partir da escola

Para o filósofo Aristóteles, uma andorinha só não faz verão. Um professor só não consegue disciplina. Ela é fruto de todo o conjunto da escola. Há alunos que ficam na mesma escola por até 15 anos. Todos os dias, vão à escola para quê? O aluno pode não ter seu projeto pedagógico bem pensado, mas a escola precisa ter. O mesmo Aristóteles dizia que para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve. Professor, gestor, coordenador deve ser disciplinado pessoalmente e como corpo docente. Sem lideranças entusiasmadas e empreendedoras, a escola se reduz a administrar conflitos cotidianos transformando o urgente em necessário.

Eficiência e eficácia são duas realidades distintas. A eficiência diz respeito aos meios e a eficácia, aos fins. Uma escola caminha bem não porque funciona bem apenas, mas porque tem objetivos claros e definidos de forma participativa. Se a escola quer formar cidadãos críticos e criativos, não pode adotar metodologias apassivadoras. Se a escola quer formar cidadãos respeitosos não pode aceitar discriminações de qualquer ordem no seu meio. A melhor disciplina é a que aponta horizontes e trabalha com as melhores metodologias para consegui-lo. Não basta boa vontade para os professores, é preciso competência.

 

(In)disciplina a partir da família

Uma criança e um adolescente devem aprender a disciplina em casa, sobretudo pelo testemunho dos adultos, no caso pai e/ou mãe. Uma casa bagunçada é um convite à indisciplina. Numa casa com boas normas de convivência obedecidas por todos impera a disciplina. Respeito ao horário, às pessoas com quem se convive, ao tempo de estudo, à convivência familiar... são fundamentais para uma disciplina equilibrada na família.

Não se educa criança e adolescente com gritos e pancadarias. O melhor remédio é o raciocínio. A paciência da explicação amorosa também é disciplina. Criança, primeiramente, não precisa ser castigada, precisa ser ensinada amorosamente. Os processos educativos mais rápidos são os baseados na força, mas os mais duradouros são os que se fundamentam na razão. Se uma criança ou um adolescente é acostumado a ser agredido fisicamente ou através da palavra, só aprenderá a obedecer deste jeito. Veja a que situação difícil um professor ou uma professora são colocados, uma vez que não podem e não devem agir deste jeito! Isto é disciplina.

 

(In)disciplina a partir da sociedade

Uma criança e um adolescente precisam ser apoiados efetivamente pela sociedade. Nossa sociedade cria uma série de distrações que afugentam do estudo. Cito dois exemplos. Primeiro, a cultura do feriadão. Fazer feriadões por conta própria ou pressionar a escola para multiplicá-los é um péssimo exemplo para as crianças e os adolescentes. A mesma coisa se diga, em se tratando de cursos noturnos, no que se refere à multiplicação de festas e espetáculos. As tentações são tantas que é mais fácil faltar às aulas do que frequentá-las.

Professor não é máquina. Professor também tem família, tem compromissos financeiros, adoece, prepara aulas, precisa de atualização. Para isso, é necessário que tenha garantia no trabalho, espaços de convivência, remuneração adequada, condições de atualização. O mais importante, porém, é que sua profissão seja valorizada e respeitada. O Estado e as mantenedoras de ensino não trabalham com máquinas e com números, mas com pessoas humanas. Por outro lado, como um professor pode exigir disciplina dos alunos se os pais deles não os levam em consideração e são completamente ausentes da escola ou, pior ainda, não são capazes de fazer uma crítica justa e educada?

 

Concluindo

Todos podemos errar e todos podemos acertar. A escola trabalha com a convivência de diferentes. O fundamental da disciplina é o respeito amoroso ao outro e ao diferente. Sem isto, mesmo parecendo disciplinados, somos muito indisciplinados. Na casa de Dom Bosco se adotava o princípio de que “boa cozinha, boa disciplina”, isto é, a disciplina está esparramada por toda parte. Um bom porteiro é um tesouro para o colégio. Assim por diante. Todos, porém, focados no objetivo de iluminar a mente para tornar bom o coração.

Lido 468 vezes Modificado em Quinta, 31 Agosto 2017 17:02
Marcos Sandrini

Diretor da Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, RS.  

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